UP Altas Aventuras – a vida real por trás da ficção

Sim, mais um Disney/Pixar. Sim, Pete Docter de novo. Sim, eu assisto filmes de gente grande, às vezes. Tenho visto alguns muito bons, aliás, mas ou a vida real por trás deles é descarada demais, ou é repetitiva demais, não dá muita vontade de interpretá-los aqui… Up! (2009, traduzido no Brasil como “Up – Altas Aventuras”) é certamente um dos melhores Disney/Pixar da história, recomendo pra todo mundo, até pra homem solteiro.

Como é de praxe, este texto só vai fazer sentido se você assistiu o filme.

E aproveito que você ainda está sentado(a) pra já ir dizendo: o personagem principal morre aos 15 minutos de filme. Pois é, quem assistiu passou uma hora vendo a passagem da alma do senhor Carl Fredricksen pro além e nem se deu conta… Explicação abaixo.

O filme pode ser dividido em quatro partes essenciais:

Parte 1

(10 primeiros minutos de filme)

Carl ainda é criança, ele conhece Ellie, que o faz quebrar um braço, ele obviamente se apaixona por ela, eles se casam, os dois vão envelhecendo, ela fica doente e morre no hospital.

O nome Fredricksen é originário da Noruega. Na vida real por trás da ficção, Carl simboliza o conflito do espírito socialista nórdico com o liberalismo americano. Na história, o tímido Carl se sustenta como vendedor de balões; Ellie, espevitada e sempre sorridente, é toda ativa no escotismo. Os dez primeiros minutos de filme mostram Carl e Ellie renunciando à grande aventura que eles tinham planejado com tanto ardor quando eram crianças por motivos mundanos — principalmente por causa de seguradoras que não cumprem o contrato: o pneu furou? Paf! Quebra o cofrinho pra comprar outro. Quebrou uma perna? Paf! Bora quebrar o cofrinho. Uma árvore caiu e quebrou o telhado da casa? Paf! Ficou doente? Paf!!!iu

Ainda bem que essa parte só dura dez minutos, o público americano não agüentaria tanta realidade por mais tempo.

Mas o casalzinho resiste, firmes, fortes
e carinhosos até a morte de Ellie. É claro que o senhor Fredricksen fica arrasado com a perda.

Parte 2

(De 00:11 a 00:16)

A vida solitária de Carl

Esta parte dura menos de 6 minutos, mas pra quem assiste parece mais longa do que a primeira. A simpática casinha dos Fredricksen foi cercada por enormes prédios em construção. Carl, agora idoso, ranzinza e agora dublado por Chico Anysio, se recusa a vender a casa.

O tiozinho finalmente acordou do sonho americano: solidão, barulho, poeira e obsolescência programada. Só a inércia o mantém vivo.

E é aí que surge Russel, um chinesinho aspirante a escoteiro. Pra poder ser promovido, ele precisa ajudar um idoso e acaba vindo bater à porta do velhinho. Tentando se livrar do pirralho, o velho inventa uma história com uma grande ave colorida e pede pro menino ajudá-lo a se livrar dela.

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Na seqüência, Carl acaba se irritando com o pessoal da construção, é julgado e condenado por agressão. Quem conhece um pouco do sistema penal americano sabe: se ele voltou andando pra casa, é porque pagou um acordo. Não vai ter jeito, ele vai ter que vender a casa pro empreiteiro e se mudar pro asilo. De volta do tribunal, ele morre de desgosto.

A morte do senhor Fredricksen é mostrada de forma muito sutil, lembre-se que é um filme pra crianças, pelo menos na base. Mas as cenas dos quadros, do chapéu pendurado, da cozinha vazia com a luz acesa — já viu um velho não-gágá sair da cozinha e deixar a luz acesa??? — explicam de uma forma delicada que a vida do personagem principal acabou. Tudo o que vem a seguir mostra a passagem de Carl para o outro lado. E ele vai ter que resolver um problema interno muito sério pra poder entrar no paraíso.

Uma curiosidade é que, na vida real, real, três figuras importantes da Disney faleceram entre o início dos trabalhos no filme e sua estréia em 2009: os animadores Frank Thomas (2004), Joe Grant (2005) e o criador de personagens Ollie Johnston (2008) tiveram o filme dedicado a eles.

Parte 3

(De 00:17 a 01:00)

As leis da Física passam a ser flexíveis. Carl e Russel vítimas de truculência na América do Sul.

pixar-up-house

Aqui os desenhistas tiveram carta branca pra usar a imaginação. Não, não dá pra arrancar uma casa do chão usando balões amarrados na chaminé. Mesmo que você consiga arranjar balões e hélio suficientes pra sustentar uma casa de dois andares, o máximo que vai conseguir é destruir a chaminé e boa parte do telhado. Mas a história precisava de uma cena de impacto pra mostrar a mudança de rumo, e a casa decolando, puxada por milhares de balões coloridos, funcionou muito bem. Rumo à… Venezuela!

Ora veja só que esse socialista europeu, desiludido com o liberalismo, tinha decidido se instalar no país de Hugo Chávez! E em 2009 este já estava no terceiro mandato, acabando de assinar o fim da liberdade de imprensa em estados de urgência!

Só depois da decolagem o senhor Fredricksen se dá conta de que Russel veio junto. Numa cena de “sonho dentro do sonho” – lembra de ‘A Origem‘ (‘Inception‘)? – ele até imagina uma maneira de botar o pimpolho de volta no chão. Mas como o tempo e o espaço já não funcionam como nas duas primeiras partes do filme, eles chegam na Venezuela em menos de cinco minutos.

E o que eles encontram na Venezuela?

  1. Um enorme pássaro colorido, exatamente o que o Fredricksen tinha inventado pro Russel antes de falecer, ainda nos E.U.A.;
  2. Muitos cães. Que falam;
  3. Chuva – o que é normal;
  4. Charles Muntz, um famoso explorador – lembre-se de que a palavra explorador tem dois sentidos bem distintos;
  5. Nenhum outro ser humano.

up-charles-muntz-web-jpgAqui é preciso lembrar que Charles Muntz era bem crescidinho quando Carl e Ellie eram crianças/fãs, o que em suma quer dizer que ou o explorador já está comendo agrião pela raiz, ou já está batendo na casa dos 100. Mas aqui na morte real dentro da ficção, ele representa um ditador que controla todo o país. E ele controla tudo porque tem muito dinheiro, conseguiu até dar voz a essa matilha de seres violentos, desastrados mas fiéis que garantem sua segurança (preciso mesmo dizer que os cães falantes são uma metáfora pra polícia, ou posso continuar na minha sutileza habitual?).

Esse ditador superpoderoso é extremamente frustrado por nunca ter conseguido capturar a ave colorida, a síntese do espírito imaginativo de Carl. Ele tinha encontrado um esqueleto da tal ave, e anda há décadas tentando capturar um espécime ainda em vida.

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Pra isso ele vai contar com a inocência de Russel, mas espera um pouco:

Na vida real por trás da ficção, o Russel da terceira parte do filme é uma representação freudiana-exotérico-espiritual da falecida Ellie. Além do fato do chinesinho também ser escoteiro, a cena do acampamento (“promete de coração?”) foi feita exatamente para que a gente entenda isso. Não é à toa que Carl vai se apegando cada vez mais a essa pequena vítima de ausência paterna; no começo do filme ele tinha prometido levar Ellie para uma aventura, não? E agora estão aqui, perdidos nessa ditadura sul-americana. No final da terceira parte, o senhor Fredricksen decide abrir mão de proteger a grande ave colorida, mesmo sabendo que ela tinha filhotes pra cuidar! Para ele, o mais importante era a sua segurança, e a segurança do pequeno Russel (=Ellie).

Parte 4

(De 01:00 a 01:16 – fim)

‘Uma cidade edificada sobre um monte não pode ser escondida’ (Mateus 5.14)

upparadisefalls2.jpg

Quem dá início à reviravolta final do filme é o pequeno Russel. É ele que causa a mudança de espírito no velho, que recupera até habilidades desconhecidas de kung-fu, estilo louva-a-deus-com-artrite. Sim, a quarta parte é a mais agitada do filme, pois é importante terminar em “up” – pra quem gosta de trocadilhos cinematográficos.

O velho socialista retoma o objetivo inicial da aventura: instalar sua casa no alto da montanha. Talvez o detalhe pudesse passar desapercebido se o cenário não fosse a Venezuela, e se o personagem principal não viesse dos Estados Unidos… mas não passou. A cidade sobre o monte (“the city upon a hill“) é uma antiga obsessão norte-americana.  John F. Kennedy, Ronald Reagan e Barack Obama já aplicaram a metáfora em seus discursos. “Estamos construindo um exemplo para o mundo” — é o que querem dizer com a famosa expressão. Os problemas, no entanto, se tornam óbvios, e mesmo eu que não sou urbanista começo a pensar: quando se constrói uma cidade no alto da montanha, de onde vêm a energia elétrica, a água, a comida, os aparelhos eletrônicos, o papel higiênico, em fim, tudo o que a gente consome em casa? Certamente lá de baixo. E… pra onde vai o esgoto da cidade no alto da montanha?

A lei da gravidade é a única que até os ricos são obrigados a respeitar, diria o Isaac.

Mas não se trata de uma montanha qualquer, trata-se do “Paraíso das Cachoeiras”. Hmmm… a tradução em Português tentou matar a ideologia do filme. Na versão original, o lugar se chama “Paradise Falls“, uma expressão que tem duplo sentido: “quedas do paraíso” ou “o paraíso cai/acaba”, enfim, “a casa caiu”. Perfeito pra quem está desiludido com a cidade no alto da montanha do hemisfério norte.

Para poder instalar sua casa no alto da cachoeira, e ao mesmo tempo guardar sua liberdade de criação (a ave colorida), o norueguês se vê obrigado a derrubar o ditador sul-americano, e consegue com a ajuda de Russel, mas sobretudo — olha só que coisa — da própria ave.

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No final o trio formado por Carl, Russel e Dug, o gold retriever que acabou chefe da polícia canina, decide sair pra tomar sorvete e percebe que a oligarquia venezuelana bloqueou o fornecimento. Usando o dirigível do explorador, eles voltam pra América do Norte. Mas agora o experiente Carl Fredricksen já entendeu tudo: ele leva seu exército canino pros E.U.A., seu espírito criativo fica na Venezuela. A casa, também.

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