Acabou?

Acabou. Pelo menos ao que parece. Durante três dias, os parisienses andaram pelas ruas achando que a qualquer momento um louco sairia atirando pra todo lado, ou um carro entraria pela calçada atropelando todo mundo.

Durante três dias, nos sentimos um pouco como em São Paulo. Mas isso, só quem morou em São Paulo, ou em outra cidade do planeta onde assassinatos já não são notícia na tevê, pode falar. E que o leitor brasileiro não me leve a mal: agradeço a simpatia de todos que pensaram em nós aqui, rezaram, acenderam velas e tudo o mais.

Pessoalmente, me chamou a atenção o fato de três pessoas com um pouco de treinamento físico para manusear armas automáticas, mas visivelmente com pouca estratégia, terem sido capazes de causar tanto estrago. Chego a me perguntar por que não temos esses eventos o tempo todo. Porque o que não falta é gente motivada a sair por aí dando tiro, e não são só muçulmanos radicais.

Ontem, no final da tarde, os três protagonistas desse GTA da vida real foram mortos pela polícia, e com as imagens que foram e continuam sendo divulgadas pelo mundo a fora, é muito difícil que a intervenção policial seja posta em questão. E como não sou especialista em ações militares, também não vou tentar dizer o que devia ter sido feito. Mas o fato é que desde o dia 7, quando a redação de Charlie Hebdo foi covardemente dizimada, as teorias de complô começaram a aparecer.

Quem seria o verdadeiro mandante do crime? Será que os dois assassinos tiveram a idéia e desenvolveram o plano desde o princípio, como reza a versão mais repetida pela mídia francesa? Ou será que isso foi organizado por grupos islamofóbicos visando reforçar a intolerância? Um ataque desse porte no coração de Paris poderia facilmente afetar muito mais do que a França:

caros amigos ataques islamofobicos

Uma outra tese que começa a encontrar defensores pela internet a dentro é a de que o próprio governo francês seria o mandante do crime. Um presidente em crise de popularidade que tinha há pouco declarado que esta “é a hora da virada”, serviços de segurança que sofrem há tempos com os seguidos cortes de verba, e ministros em busca de credibilidade devem se beneficiar do espírito de “União Nacional” que o próprio governo se esforçou em lançar imediatamente após a chacina no jornal (o governo francês organiza uma passeata na Place de la République de Paris amanhã).

Há quem diga que depois desses três dias de terror em Paris, o governo francês pode propor uma lei na mesma linha do Patriot Act americano, mas isso ainda não aconteceu.

Mas é verdade que várias ameaças já vinham sendo feitas contra a França (e não apenas contra o governo francês ou algum alvo específico do país) desde a intervenção no Mali, em janeiro de 2013. E é por isso que a tese de que Amedy Coulibali e os irmãos Kouachi realizaram os ataques por iniciativa própria após terem sido influenciados pelo Estado Islâmico parece ser a mais fácil de provar.

Só que a intervenção policial não deixou testemunhas. Três terroristas mortos, e uma namorada desaparecida (Hayat Boumeddiene, namorada de Coulibaly) não vão poder dar suas versões da história. E fatos no mínimo estranhos, como uma carteira de identidade esquecida no carro usado na chacina, e um presidente que aparece no local do crime pouco tempo depois da notícia de ataque terrorista, dão asas à imaginação.

khadafi menaceHá tempos o governo francês mantém relações nebulosas com líderes islâmicos. Por exemplo, Muammar al-Gaddafi, líder da Líbia que também foi morto numa intervenção militar em outubro de 2012, tinha financiado parte da campanha do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy. E há tempos parte da mídia francesa (especialmente o Mediapart) começa a pedir esclarecimentos, e para isso são necessários menos mortos e mais testemunhas.

Na próxima segunda-feira, quem mora na Europa provavelmente vai voltar à vida normal e esquecer esses três dias em que a ansiedade e a apreensão dominaram Paris. O metrô vai voltar a ficar lotado, o pessoal vai voltar às compras (agora é a época dos Soldes — promoções pós-Natal — por aqui). Mas pra quem mora em San Pedro Sula, Acapulco, Caracas, Distrito Central de Honduras, Torreón, Maceió, Cali, Nuevo Laredo, Barquisimeto e João Pessoa (pra citar só algumas das cidades mais violentas do mundo), esses três dias de Paris não tiveram nada de violentos. Só que pimenta nos ojos de latinos é refresco, pouca gente por aqui vai se dar conta de que esses três dias são o cotidiano em muitas cidades pelo mundo. Menos gente ainda vai perceber que a França desempenha um papel importante na manutenção do radicalismo islâmico. O mais fácil é que se fale de imigração, pena de morte, melhor armamento da polícia e essas coisas. Normal, quoi.

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um comentário

  1. Depois que este post foi publicado, o primeiro ministro francês Manuel Valls declarou que o governo francês não espionará as comunicações. Já o primeiro ministro inglês David Cameron… http://www.reuters.com/article/2015/01/12/us-france-shooting-britain-cameron-idUSKBN0KL18320150112

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