Monstros S. A. — a vida real por trás da ficção

Monstros S. A. (2001) é um excelente filme de animação. Não por ser resultado da parceria mágica Disney/Pixar, muito menos por ter a voz de Billy Crystal na versão original, mas por toda a ideologia que Peter Docter conseguiu vender através da hermética Disney. Não deixe de mostrá-lo pros seus filhos! Explicações abaixo.

A maior parte da história se passa na cidade dos monstros, criaturas fisicamente bem distintas umas das outras, principalmente no que diz respeito ao número de olhos que têm. Logo no começo do filme, fica claro que os monstros passam por uma crise energética — qualquer semelhança com países à beira de um golpe de estado pode não ser mera coincidência. A única fonte de energia no mundo dos monstros são os gritos das crianças que eles amedrontam à noite no planeta Terra. No interior da usina que leva o nome do filme, cujo lema é “assustamos porque cuidamos”, os monstros se servem de portais entre os dois mundos que os levam diretamente aos armários dos quartos das crianças. Eles as assustam e, através de um processo físico-químico de condensação energética não explicado no filme, os gritos dados na Terra são estocados em botijões no mundo dos monstros. No entanto, por algum motivo, as crianças se assustam cada vez menos, e a produção de energia está cada vez mais baixa, o que coloca em risco o conforto dos monstros.
A analogia é clara, pelo menos pra quem tem uma filha de 3 anos em casa e assistiu ao filme umas 583 vezes: lançada mais de dez anos antes da Primavera Árabe e dos protestos de junho de 2013 no Brasil, a animação antecipa que

o medo já não funciona pra controlar a população do mundo real.

A usina de energia Monstros S. A. conta com James Sullivan, o “monstro” (ele mais parece com um bichinho de pelúcia) de pêlo azul-esverdeado com manchas violetas cujo trabalho é entrar nos quartos das crianças para assustá-las, e seu parceiro Mike Wazowski, que controla o condensador de energia, troca os botijões e preenche os relatórios de produção. Eles são os únicos monstros do filme que possuem chifres no estilo diabinho, um indício de que são eles os vândalos que vão desafiar o sistema na história.


Sulley

A Pixar parece ter passado um bom tempo pensando e desenhando “Sulley” e seus milhões de longos pêlos que se movem independentemente. Ele é o herói Disney perfeito: talentoso, forte, inteligente, trabalhador e, ao contrário de Mickey, Pateta e Donald, assexuado. Por causa de um erro de um concorrente, uma criança humana (“Boo”) acaba invadindo o mundo dos monstros. Motivado pela empatia, Sulley resolve protegê-la do presidente da usina, um aranhão escuro de voz grossa e jeito de político. Tanta vontade de proteger Boo leva Sulley a arriscar sua carreira e mesmo sua liberdade, mas em momento algum do filme ele dá sinais de hesitação.

 

 


Mike

O tempo gasto no desenho de Sulley foi certamente economizado no personagem Mike Wazowski, um limão-cíclope monocromático com braços e pernas vermiformes que dá ao espectador — com a ajuda da voz de Billy Crystal — essa vontade de lhe dar um tapa na orelha (se ele tivesse uma), pois ele é o personagem pentelho da trama. Mike tenta dissuadir Sulley de sua obsessão por Boo. Na vida real por trás da ficção, ele representa a classe média reacionária, pois não quer arriscar o que conseguiu com o trabalho árduo (um carro e uma namorada em forma de polvo com serpentes na cabeça) para proteger uma criança indefesa. Mas Mike acaba sendo convencido por Sulley a abraçar a causa e o limão tagarela termina também como herói, mesmo que o reconhecimento no final tenha sido um tanto quanto limitado.


Boo

A roupinha vermelha propõe uma associação direta entre Boo e a Mônica de Maurício de Sousa, e também com a garotinha d’A Lista de Schindler. Uma cena rápida do filme revela que a menininha se chama, na vida real dentro da ficção, Mary. Não bastasse esse nome, muito comum em todos os países anglófonos, Mary é um personagem sintética: ela ri como um bebezinho, fala e anda como uma criança de 2 ou 3 anos e desenha como uma menina de 6. Aquele rostinho de criança do sudeste asiático lembra que Boo poderia ter sido vítima de traficantes de mulheres e se tornado “massagista” na Europa, mas por enquanto ela leva uma vida tranquila na Costa Leste norte-americana. Na vida real por trás da ficção, ela e as outras crianças humanas que aparecem no filme representam as classes sociais mais baixas, que são constantemente exploradas e nem sempre se dão conta. São elas que sustentam o sistema representado pelos monstros no desenho, e não é à toa que a classe dominante tem pavor delas. Aplausos sinceros para as cenas do banheiro: ao ver que os personagens do desenho têm necessidades fisiológicas, a gente até esquece que se trata de um filme da Disney.


O presidente

Henry J. P. Waternoose é o presidente da Monstros S. A.. Cínico e maquiavélico, ele confessa, num acesso de sinceridade perto do final do filme, que “seqüestraria milhares de crianças para salvar a empresa”. Waternoose é uma condensação muito eficaz da banalidade do mal de Hannah Arendt: ao se dedicar inteiramente à usina, Waternoose deixou ética e empatia de lado há tempos. Não é por nada que Waternoose se associa a Randall Boggs, um monstro camaleão cuja obsessão é superar Sulley para subir na carreira — e provavelmente se tornar presidente no futuro! Essa dupla do mal quase nos faz perder a esperança na humanidade, como se todos precisássemos nos tornar cínicos e insensíveis como Adolf Eichmann pra ganhar uma promoção, mas a esperança é mantida graças a…


Roz

Secretária da Monstros S.A., Roz é, na vida real ainda dentro da ficção, chefe da CDA, a Agência de Detecção de Crianças, uma mistura de FBI com Marines cuja principal missão é evitar que os monstros entrem em contato com qualquer material humano. A comparação entre a CDA e as diferentes polícias que existem no mundo real é inevitável, e até óbvia demais. Mas Roz é uma chefe que tem coração, e ela encontra uma solução ética para a invasão de Boo sem derramamento de sangue. Menção de honra para a dicção de Roz, tão lenta quanto a do oráculo de Matrix. Na mesma linha do oráculo, Roz também não quer deixar de dominar o mundo, ela apenas descobriu uma boa forma de se manter no poder.

 


Monstros S.A. propõe uma nova maneira de manter a ordem mundial

Com tanta realidade retratada no desenho, deve ter sido difícil imaginar um final que não causasse uma onda de suicídios pelo mundo a fora, e nisso Peter Docter foi genial: durante a correria para devolver Boo a sua casa na Terra, Sulley descobre que o riso da menina emite mais energia do que seus gritos de pavor. Uma grande mudança é feita na usina, e os monstros passam a invadir os quartos das crianças para fazê-las rir. Mike se torna comediante num one lemon show e se mostra tão eficaz quanto era Sulley na época do terror. A mensagem, na vida real por trás da ficção, é de que as classes dominantes devem divertir ao invés de assustar. E por quê? Ora, isso é bem explicado pela trilha sonora no encerramento do filme: “eu nada seria se não fosse você” (ainda mais claro no original: “I wouldn’t have nothing if I didn’t have you” — ou “eu não teria nada se não tivesse você”).

E, agora que os primeiros espectadores do filme começam a ter idade pra votar, a mensagem de Monstros S.A. parece ter sido ouvida por algumas das grandes autoridades do mundo real. Quando assumiu o Vaticano, o papa Francisco logo deixou claro que não seguiria a mesma linha de seus antecessores; chegou a dizer que “gays não deveriam ser discriminados“. Mais recentemente, Christine Lagarde, diretora executiva do FMI, entrou na linha de George Soros e Bill Gates e começou a propor mais impostos sobre a propriedade, de forma a diminuir a desigualdade. Que venham os discursos de capitalismo inclusivo. E que se surpreenda quem não acabou de ler a análise de Monstros S.A.! Nesta nossa atualidade, em que o show business dá muito mais dinheiro (ou melhor, concentra mais riquezas) do que a produção de alimentos, nada mais coerente do que impor entretenimento ao invés de violência. Só não se empolgue muito: a Igreja Católica ainda está muito longe de apoiar as lutas por direitos de homossexuais, os governos da maioria dos países do mundo não vão fazer os ricos pagarem mais impostos este ano, o Bill Gates não vai acabar com a fome em país nenhum. Mas, sabe como é, “que as balas sejam Mirabel”. E dá licença que vamos pra 584a… Play!

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