Brincando com números

Este post foi inspirado por um estudo do IBPT que apontou o Brasil como o pior país em termos de retorno do imposto pago pela população. O pior de uma lista de trinta países. Esse estudo foi comentado em vários portais de notícias e jornais. Alguns jornalistas parecem ter feito o Curso de Jornalismo para Editores do Leconnector e abusado da “liberdade de interpretação”:

Yahoo! news

Não, Yahoo! News, não é “o pior do mundo”, no estudo só tinha 30 países

Mas hoje o assunto não é exagero jornalístico, é Matemática. Veja a fórmula usada pelo estudo para fazer o famoso ranking nas palavras dos próprios autores:

O IRBES é decorrente da somatória do valor numérico relativo à carga tributária do país, com uma ponderação de 15%, com o valor do IDH, que recebeu uma ponderação de 85%, por entendermos que o IDH elevado, independentemente da carga tributária do país, é muito mais representativo e significante do que uma carga tributária elevada, independentemente do IDH. Assim sendo, entendemos que o IDH necessariamente deve ter um peso bem maior para a composição do índice. ”

Há dois problemas na concepção do método:

1. Quanto custa um quilo de arroz?

Se um pacote de 5 kg de arroz custa R$ 6,00, quanto custa um quilo de arroz?
Pra responder a essa pergunta, você e eu fazemos uma conta de divisão: 6 divididos por 5 fazem 1,2, logo cada quilo de arroz custa R$ 1,20. Óbvio, não? Pois então os estudiosos do IBPT nunca vão no supermercado, ou então pagam R$ 11,00 por quilo de arroz, pois eles fazem uma soma quando deveriam fazer uma divisão. O tal índice de retorno de imposto (IRBES) é apenas uma somatória de dois números e não estabelece relação alguma entre eles. Só isso já seria motivo de gritaria e boicote, ou pelo menos foi o que aconteceu aqui em casa quando eu li a descrição do estudo.

2. A ponderação

Os próprios autores declaram que a ponderação é arbitrária, ou seja, dá pra ajustar os valores de ponderação como a gente bem entender e modificar a lista de forma a mostrar o que a gente quiser mostrar. A ponderação mencionada, de 85% para o IDH, faz com que os países com maior IDH sejam automaticamente melhor colocados no ranking. E, olha só que coisa curiosa, dos 30 países selecionados, o Brasil é o de menor IDH (basta olhar a tabela do estudo).
O mais escandaloso é que esse estudo teve ampla divulgação por portais de notícias em toda a internet. Foi repetido (sem nenhum comentário sobre a metodologia) nos portais Globo e Terra, e até mesmo em sites especializados como o BusinessReviewBrasil. Se houve protestos? Pelo menos dois, de dois leitores indignados da revista Exame, seus comentários podem ser lidos aqui (e este post foi publicado antes que eu lesse os comentários, por isso não contém as informações citadas pelos dois leitores da Exame. Um deles usa o mesmo cálculo que fiz mais abaixo para fazer um ranking que possa ter algum sentido, o outro esclarece um pouco mais sobre os impostos no Brasil e o IDH).

Além do óbvio

Mas Leconnector também gosta de brincar com números. E como somos mais megalomaníacos que o IBPT, ao invés de selecionar 30 países, usamos a base completa do FMI e da ONU (189 países). É sério, esses caras tiveram muito trabalho coletando dados, seria um desperdício não espiar o que eles têm. Pode ir lá também:
A equipe de estagiários Leconnector preparou uns gráficos especialmente dedicados aos jornalistas que mataram aulas de Matemática:
PIB per capita vs IDH
Este aí acima, por exemplo, é um gráfico de correlação. Cada círculo vermelho representa um país, e é posicionado de acordo com duas grandezas: o PIB por habitante e o IDH. Num gráfico de correlação, se as duas grandezas não são relacionadas, os pontos se distribuem aleatoriamente. A linda curva crescente que você vê indica que o IDH é diretamente proporcional ao PIB per capita, ou seja, para ser desenvolvido, é preciso ser rico. Sério que precisa fazer gráfico pra constatar isso? Não, não precisa, mas dá um ar profissional pro post.
Para ir além do óbvio foi necessário levar o tempo em consideração, ver como as coisas evoluem. Em uma das brincadeiras com esses números, isolamos os dados de carga tributária e IDH do Brasil e acabamos descobrindo algo interessante:
IDH CT Brasil

Os dados de antes de 1996 não estão disponíveis na planilha do FMI.

Como você vê, pelo menos desde 2005 a carga tributária cresce junto com o IDH no Brasil. Isso é bom (e muito surpreendente ao mesmo tempo), pois sugere que os impostos estão realmente fazendo efeito… afinal, parece que o Brasil não é tão incompetente assim em retornar impostos! Mas quem não quer pagar impostos, inclusive alguma rede de televisão sonegadora — que pode ser que exista —  não vai querer que você veja isso.
E você que mora no Brasil anda revoltado porque paga cada vez mais impostos? Ora, é porque o brasileiro está cada dia mais rico, olha só:
PIB per capita no brasil
Hein? Ainda não trocou de Rolls Royce este ano? Pois é, nenhum desses dados (PIB per capita, IDH) leva em conta a desigualdade da distribuição renda, que continua sendo o grande desafio do Brasil. Um bom sistema tributário pode ajudar a corrigir essa desigualdade, o que quer dizer claramente “fazer os ricos pagarem mais impostos”. Essa é uma campanha que até alguns ricos começaram a fazer, e ainda será assunto aqui, mas por enquanto, se estiver curioso(a) pode fazer uma pesquisa com o nome Bill Gates. Esses dados também não mostram o custo de vida, que também aumentou nos últimos anos no Brasil.
Voltando à evolução da carga tributária e do IDH, Leconnector fez o mesmo gráfico com os dados dos EUA para comparação, já que o estudo do IBPT apontou os EUA como os melhores em termos de “retorno de imposto”:
IDH CT EUA

Para facilitar a comparação entre as velocidades de crescimento, as amplitudes das escalas dos dois gráficos (Brasil e EUA) foram igualadas (10 pontos percentuais para a carga tributária; 0,1 para o IDH), mas veja que o eixo “Ano” cobre um intervalo de tempo maior para os EUA, na medida dos dados disponíveis. Isso aumenta visualmente as velocidades dos EUA em comparação com as do Brasil. A planilha do FMI contém a carga tributária dos EUA desde 1980.

Curioso, não é? Desde 2005, os EUA crescem em IDH sem crescimento de carga tributária. Mas os dados de IDH isolados de 1980, 1990 e 2005 (triângulos verdes sem linha conectando)  mostram que a tendência era a mesma do Brasil até o ano 2000, ou seja, parece que era necessário aumentar a carga tributária para fazer crescer o IDH.

Quanto custa o desenvolvimento?

Uma forma de medir a eficiência de um governo poderia ser calcular quanto custa cada milésimo de IDH para cada habitante por ano. Com esses dados é fácil fazer isso, mas Leconnector não poderia brincar com apenas 30 países, como você sabe, por isso os valores foram calculados para todos os países da lista. Quer saber qual é o IDH mais barato do mundo? O de Madagascar. Os habitantes de lá pagam em impostos US$ 0,11 por cada milésimo de IDH a que têm direito. O IDH mais caro do mundo é o da Noruega (US$ 59,09 por pessoa por ano), e o Brasil ficou em 53° lugar, com um IDH que custa US$ 5,86 por pessoa e por ano. Ah, mas há uma certa diferença entre viver na Noruega (IDH=0,955), no Brasil (IDH=0,730) e viver em Madagascar (IDH=0,483), e é por isso que essa comparação só faz sentido se for realizada em países de IDH similares. Ou então comparar os IDH entre países semelhantes em PIB per capita, ou em arrecadação per capita. Os países de IDH semelhante ao do Brasil são: Sri Lanka, Armenia, República Dominicana, Albânia, Geórgia, Jordânia, Tonga, Fiji, Belize, Tunísia, Jamaica, Peru, Samoa, São Vicente e Granadinas, Ucrânia, Santa Lúcia, Ilhas Maurício, Dominica, Bósnia Herzegovina, Algéria, Colômbia, Líbano, Equador, Venezuela, Azerbaijão, Turquia, São Kitts e Névis, Omã e Irlanda. Essa lista é um tanto quanto diferente da lista usada pelo IBPT. Tentemos então outro parâmetro:
Os 30 países de PIB per capita similar ao brasileiro são: Bielorússia, Botswana, Granada, Colômbia, Santa Lúcia, Azerbaijão, Romênia, Suriname, Ilhas Maurício, Costa Rica, Malásia, Líbano, Turquia, Líbia, Panamá, México, Argentina, Venezuela, Gabão, Kazaquistão, São Kitts e Névis, Hungria, Croácia, Polônia, Seicheles, Antígua e Barbada, Palau, Latvia, Rússia e Barbados. Não, ainda não parece com a lista do IBPT.
E se o IDH do Brasil custa US$ 5,86, que tipo de IDH dava pra ter por esse preço? Por um pouquinho mais do que isso (US$ 6,70 por ano em impostos), você poderia viver na Eslováquia, o maior IDH da lista em que estão também Barbados, Polônia, Lituânia, Latvia, Argentina, Seicheles, Croácia, Bahamas, Uruguai, Palau, Rússia, São Kitts e Névis, Turquia, Taiwan, Timor Leste e Angola (países com custo de IDH compreendido entre Us$ 4,86 e US$ 6,86). Pois é, nada de Dinamarca à vista. Se quiser viver lá, pode ir preparando uns US$ 34,48 por ano em impostos por milésimo de IDH (e o IDH é de 0,901).
Mais do que fazer um ranking e tentar colocar o Brasil em primeiro, quinquagésimo ou último colocado, o melhor que você tem a fazer é lutar para que o seu imposto seja bem gasto. A situação das escolas, estradas e hospitais públicos do Brasil mostra que o crescimento do PIB per capita não foi inteiramente repassado para os serviços públicos, e o IDH, por ser um índice global, pode não mostrar isso. O Brasil certamente não é o melhor país do mundo em retorno de imposto. Mas também não é o pior. Quer saber quem são os piores? Olhe para o primeiro gráfico lá em cima, e encontre a Papua Nova Guiné. Com a arrecadação que esse governo tem, o IDH do país deveria estar em torno de 0,8. Isso, sim, é um mal retornador de impostos, não é? Mas ainda há outro: o governo do Luxemburgo, que arrecada o suficiente para ter o IDH perfeito, mas cuja população tem que se contentar com o IDH 0.875…

Quer pagar quanto?

Mas não tem jeito, galera, desenvolvimento custa dinheiro em impostos. O gráfico de correlação entre arrecadação per capita e IDH é quase idêntico ao primeiro gráfico lá de cima (PIB per capita vs. IDH). Com esses dados, a única coisa que se pode dizer do Brasil é que ele poderia cobrar ainda mais impostos. Como dito acima, o PIB per capita e a carga tributária não dizem nada sobre desigualdade social, nem sobre justiça tributária, mas a quantidade de milionários brasileiros indica claramente quem é que poderia financiar ainda uma boa subida no IDH.
Este pequeno estudo não tem tanta graça quanto o do IBPT, pois afinal o Brasil não fica nem em primeiro, nem em último em nada. Mas posso enviar os arquivos .XLS com os gráficos pra quem quiser continuar a brincadeira. É de graça.

Leitura recomendada

Somos educados para o analfabetismo econômico

Óleo do diabo: a falácia da carga tributária no Brasil

A presidente Dilma e a falácia da carga tributária

O Homem que Calculava: Brasil é 3º em ranking internacional de eficiência em aplicação dos impostos

Cidadania Fiscal.docx

Carta Maior: Os Vazamentos do Dinheiro Público

 

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22 comentários

  1. Anônimo · · Responder

    Carlinhos, muito legal o seu post, mas fiquei com um gostinho amargo. Não sei se é de estragado ou se é meu paladar que esta meio vencido.

    Pra mim não faz muito sentido utilizar unidade de $ pago em imposto/valor de IDH. Claro que esse calculo demonstra de maneira inquestionável que IDH custa dinheiro. As vezes discuto isso com visitas que vêm do Brasil pra Paris e pegam o RER/metrô. Sempre prego a peça de perguntar quanto custou em euro e em real. Ora, um passe de metrô a 1,70 euros é caro para o padrão brasileiro (mais do que 5 reais), e o trem do aeroporto para Paris custa cerca de 10 euros (cerca de 30 reais). E o pessoal no Brasil quebrando tudo por catraca livre.

    Não existe qualidade/desenvolvimento de graça. Seu post deixa isso claro, além do exemplo banal que citei. No entanto, essa é uma reflexão usando números absolutos. Ainda que faça muito sentido, é muito pobre como ferramenta de comparação.
    O motivo é simples. Para comprar 1 milésimo de IDH, o povo da Dinamarca paga la seus 34 US$. O brasileiro paga cerca de 6 US$ para cada milésimo de IDH. Pois bem, isso demonstra que IDH custa a mesma coisa no mundo todo em valores absolutos. O problema é calcular quanto 34 US$ pesa no bolso do dinamarquês, e quanto pesa no boldo do brasileiro.

    A renda per capita no Brasil é cerca de 11 mil US$ anuais. A renda do dinamarquês é de 56 mil US$ anuais, 5 vezes maior que a do brasileiro.

    Não surpreende que o dinamarquês tenha dinheiro para comprar 5 vezes mais IDH do que o brasileiro. Eles ganham 5 vezes mais dinheiro. Simples.
    Logo, o problema não é querer ou não querer pagar. O problema é TER para pagar.

    Enfim, isso não invalida sua conclusão. O brasileiro tem o IDH que compra. Ou seja, os 11 mil US$ por ano do brasileiro compram o equivalente que 11 mil dinamarqueses compram, mas os dinamarqueses fazem essa compra uma vez a cada 2,5 meses, e não uma vez ao ano.

    Por outro lado, é inaceitável que parte do que o brasileiro paga simplesmente evapore. Usamos aqui dólar per capita per IDH. Existem muito mais “capitas” no Brasil do que na Dinamarca (a população brasileira é 20 vezes maior…VINTE!). Ou seja, mesmo investindo 5 vezes menos per capita, o brasileiro investe 4 vezes mais em valores absolutos (olha eu aqui jogando o seu jogo…). Mesmo assim, é um desafio achar um só cantinho no Brasil que nos lembre a Dinamarca.

    A discussão vai longe.
    Abs

  2. Grande anônimo, vou assumir que vc é o Daniel. Bom, você tem razão em lembrar as diferenças de renda, eu não abordei isso no post, primeiro porque não saberia como tratar o assunto, em segundo porque o IDH é uma medida absoluta. Com este post eu quis fazer o pessoal pensar um pouco quando vê comparações entre Brasil e países do primeiro mundo, e também criticar o método usado pelo IBPT (somar carga tributária com IDH e chamar isso de “retorno do imposto”???). Existem estudos que calculam quanto dinheiro é perdido com a corrupção, problema que também não abordei mas que não é exclusividade do Brasil. A ONU também tem dados sobre isso, mas ia ficar muito longo se eu quisesse incorporar. Outro problema que faz o IDH custar mais caro é a má administração, por incompetência, mesmo. E isso está longe de ser exclusividade brasileira.

  3. Daniel · · Responder

    Era eu mesmo. Esqueci de assinar.
    Quase nada é exclusividade brasileira. O ufanismo do brasileiro é o que nos faz pensar assim.
    Por outro lado, não é só porque nos EUA e na França também tem merda que temos que nos resignar com as merdas tupiniquins.
    O primeiro gráfico do seu post é muito interessante. Há uma correlação linear entre PIB/capita e IDH apenas até o 0,75 (mais ou menos onde esta o Brasil). Depois disso, mais grana não significa necessariamente maior IDH. Ou seja, a partir de um certo momento investir bem é que faz a diferença, e não simplesmente investir.
    Por isso que temos sim que trazer a tona o quão mal faz a corrupção e a incompetência no Brasil. Basicamente, o que acontece é que o povo têm ficado mais rico, mas a qualidade de vida continua em segundo plano.
    Esse gráfico mostra que nem tudo se compra. Tem que ter um pouco de inteligência.

  4. Com certeza. Mas preciso dizer que o IDH não é um bom parâmetro pra esse tipo de comparação. O IDH não leva em conta se você está instalando saúde de qualidade no Amazonas ou apenas mantendo os hospitais da Dinamarca, que é urbanizada desde a Idade Média. Foi muito bom ter escrito este post e lido as críticas, aprendi muita coisa.

  5. Oi, você é parente do Kikuti? Da Stat-Math, Banco Panamericano?

  6. Bom trabalho! O próprio IDH tem seus problemas também, eu mesmo já andei dando uma olhada nisso: http://ceticosblog.wordpress.com/2013/08/02/indice-de-desenvolvimento-humano-media-ou-mediana/

    Aliás, já fica o convite para participar do Blog Cético. Nós também gostamos de um bom debunking!

  7. Oi Danielle, depende do cargo dele no banco! Hehe, desculpe a brincadeira, nem sei onde trabalham todos os meus parentes… em que cidade, esse banco?

  8. Valeu, André, o seu post prova que precisamos nos organizar como cidadãos e criar mais estudos independentes, e também exigir que dados coletados com o dinheiro público sejam disponibilizados a todos. Gastos de escolas, hospitais, prefeituras e governos também.

  9. rmtakata · · Responder

    Não vou dizer que os 30 países incluídos pelo IBPT sejam escolhidos a dedo, mas quando expandimos o tamanho da amostra, o cenário é um tanto diferente do que eles apregoam, o Brasil está praticamente no valor esperado de CT x IDH: http://neveraskedquestions.blogspot.com.br/2013/02/no-brasil-pagamos-impostos-demais.html

    []s,

    Roberto Takata

    1. Oi Roberto, longe de mim querer desmerecer o seu trabalho, mas o R2 de 0,14 mostra que não há correlação entre IDH e CT (preciso calcular o R2 do meu gráfico também, mas como não é uma reta, é preciso tomar alguns cuidados). Isso, a meu ver, porque a porcentagem (CT) não revela quanto de dinheiro é arrecadado. A arrecadação per capita funciona bem melhor, pode tentar pra ver. Na minha opinião, esse tipo de raciocínio como o seu faz muita falta. Concordo que não é necessário ser economista pra entender o que é IDH, carga tributária e PIB, todo contribuinte devia se preocupar com essas coisas, o país só tem a ganhar com isso. Abs!

  10. Pedro · · Responder

    Gostei como o texto coloca em pauta a problematica de se acreditar em qualquer informacao jah processada que apearece por ai, e infelizmente a falta de coerencia (aliada, devo admitir, a minha preguica de ir atras de apurar os fatos) me tornou uma pessoa bastante cetica. De qualquer maneira, eu soh gostaria de levantar um ponto a analise realizada por voces: apesar de soar bastante coerente, como provar que a correlacao entre aumento da CT e do IDH eh uma relacao causal? Eu poderia plotar no mesmo grafico em vez de IDH, de repente, o preco do tomate e, caso ele apresente o mesmo comportamento, estabelecer uma analise em como o aumento da CT afetou negativamente o preco do tomate levando a um baxo faturamento dos restaurantes italianos. Long de mim querer achar pelos em ovos, mas acho que seria interessante pensar em como determinar tal relacao de causalidade que vai alem do “isso soa coerente”.

    1. Oi Pedro, você tem razão, o objetivo do post não foi estabelecer uma relação causal entre arrecadação e IDH, e é por isso que usei a palavra “parece” no texto abaixo do gráfico IDH vs. CT dos EUA. Aliás, depois da idéia do Roberto aí acima, faltou fazer um gráfico arrecadação per capita vs. IDH no tempo pros EUA e pro Brasil. Mas nem sei se vou passar tempo com isso, agora estou achando que o IDH não é um bom parâmetro (ver comentário acima sobre a Dinamarca). Gostaria de agradecer a você e também a todos os outros que comentaram, eu quis justamente atiçar esse tipo de preocupação.

  11. Alexandre · · Responder

    Olá!

    Gostei do seu post e acho que você provavelmente vai se interessar por essa palestra:

    1. Alexandre,
      Não, não gostei. Acho que tem até alguns pontos que aproveitei, mas no geral não convenceu. Se quiser a gente discute sobre isso. Abs

      1. Alexandre · ·

        Que pena, achei que a primeira parte – sobre como a interpretação dos fatos deve ser feita por premissas universalmente válidas – ajudaria a entender porque estabelecer uma correlação não significa muita coisa nas ciências sociais. Essa parte, sobre o método, podemos sim discutir, com prazer. =)

        Sobre as premissas que ele apresenta, não são inquestionáveis como ele quer fazer crer, mas várias delas não são facilmente refutadas. Embora meu interesse seja maior pelo método, podemos também discutir as premissas.

        Sobre última parte, em que ele fala sobre monarquia, não tenho nenhum interesse em discutir.

        Abs!

    2. Ah, tá, Alexandre, acho que estamos mais ou menos de acordo, então. Mas esse método me parece muito difícil de pôr em prática. O próprio Hans se enrola e acaba pronunciando seu preconceito como se fossem asserções universalmente aceitas. Não tem jeito, a ideologia está em tudo — se quiser veja o post “A Varanda” sobre o assunto ( https://leconnector.wordpress.com/2014/02/08/a-varanda/ ) — ou pelo menos essa é a minha opinião. De qualquer forma, a única correlação realmente provada neste post foi essa entre PIB per capita e IDH. Concordo que não é muito útil porque é como adotar o discurso do Victor abaixo: “aumentem o PIB!” – como se a Dilma fosse assinar um papel e o PIB do ano aumentasse. Eu quis mostrar a correlação pra ajudar a desbancar o estudo do IBPT, que compara o IDH do Brasil ao de países de muito maior PIB per capita. Este post evoluiu comigo, à medida em que fui percebendo a inutilidade do IDH para alguns tipos de comparação, inclusive a de retorno de imposto. A evolução continuou nos comentários, e não vou rescrever o texto, mas se fosse escrever sobre o assunto hoje, ele seria bem diferente. Achei interessante que alguns tenham pensado que sou especialista em economia ou ciências sociais, mas como você parece ter percebido, não é o caso. Agradeço por links ou sugestões de leitura q vc tiver!

      1. Alexandre · ·

        Olá de novo!

        Li o post que você recomendou e tenho a dizer, logo de início, que eu não gosto do termo ideologia. Não gosto porque ele foi criado na filosofia com um propósito mas foi (maliciosamente?) adaptado para representar significados úteis para essa ou aquela teoria econômica, sociológica, psicológica etc. sem que se fizesse muita questão de esclarecer exatamente do que se tratava. Estou avisado que a polissemia não é exclusividade desse termo, mas no caso dele ela acabou tornando o termo relativamente pejorativo e amplo a ponto de perder sua utilidade prática numa discussão.

        Dito isso, concordo com o sentido geral do seu texto de que as pessoas partem de conjuntos mais ou menos fechados(semipermeáveis?) de idéias e usam essas ideias para avaliar novas proposições e decidir se elas entram ou não nesse conjunto e, ainda, o quanto essas novas ideias estarão próximas do centro ou então na margem externa desse conjunto. Elas também aceitam, muitas vezes, que essas ideias entrem com maior facilidade quanto vem de uma fonte na qual confiam e da qual já vieram outras várias ideias e julgaram aceitáveis, assim como são mais resistentes quando a fonte costuma trazer ideias que normalmente não são coerentes com o conjunto existente. Concordo com tudo isso, mas acho que é um mecanismo relativamente inteligente de avaliar as ideias, apesar de acabar gerando esse comportamento de torcida que a gente vê muito acontecer por aí.

        De qualquer forma, acho bastante óbvio que alguém que dedicou boa parte da vida a estudar uma disciplina – economia, no caso – possua diversas concepções solidificadas em sua maneira de ver o mundo e não acho, mais uma vez, que isso seja um problema. Cabe a nós, ouvintes, escrutinar essas ideias e passá-las ao crivo da razão e da realidade para ver com quais concordamos ou não.

        Falando de novo da escola austríaca.

        O método é o que mais despertou minha a atenção: enquanto outras escolas teóricas buscam explicações que possuam coerência interna e correlação com a realidade, a escola austríaca busca estabelecer premissas autoevidentes para, a partir delas, interpretar a realidade. Sabemos facilmente que mesmo havendo coerência interna e correspondência relativa com a realidade uma explicação pode ser falsa, como é o caso, por exemplo, da astrologia, da homeopatia e tantas outras ciências. Partindo, no entanto, de premissas verificáveis, a conclusão será verdadeira sempre que o raciocínio respeitar as regras da lógica. A dificuldade, como você já parece indicar ter percebido, é estabelecer quais são essas premissas.

        A grande resistência a esse pensamento no século XX vem do filósofo Karl Popper. Ele rompe com o modelo Aristotélico das “verdades evidentes” (que Descartes chama de ideias claras e distintas) para instituir a falseabilidade como critério da verdade científica. Já a escola austríaca utiliza outro modelo epistemológico, separando as proposições em dois grupos: proposições teóricas e proposições hipotéticas. As hipotéticas são aquelas que podem ser testadas e, portanto, falseadas, se encaixando no modelo popperiano, já as teóricas, por outro lado, são aquelas que Aristóteles chamaria de “verdades evidentes” e Descartas de “ideias claras e distintas”. Verdades que se sustentam sem serem testadas, pela simples lógica conceitual. É nessa hora que o Hans faz aquela lista bem de proposições teóricas(verdades evidentes) das ciências naturais “a menor distância entre dois pontos é uma reta”; “duas retas nunca formam um plano”, “nenhum objeto material pode estar em dois lugares ao mesmo tempo” etc. mas que não são verdades científicas no modelo popperiano, porque não são verdades hipotéticas e, por essa razão, não podem ser falseadas. Depois de listas alguns exemplos das ciências naturais, ele passa a listar alguns exemplos das ciências sociais/economia.

        Aqui é onde encerra a parte que trata do método, a parte seguinte é justamente discutir se essas afirmações que ele faz na segunda parte são realmente verdades evidentes. E essa é uma discussão muitíssimo interessante que deve ser feita afirmação por afirmação, se for de interesse, já que para cada uma delas há centenas e centenas de páginas escritas. Isso porque uma proposição teórica(ou verdade evidente) não é necessariamente imediata. Claro que dizer que “a menor distância entre dois pontos é uma reta” parece relativamente fácil de aceitar, mas a complexidade de uma proposição na geometria euclidiana tridimensional, por exemplo, não faz com que ela seja menos verdadeira.

        Abraços e, mais uma vez, parabéns pelo blog!

        P.S. Eu estou ciente da existência da geometria não-euclidiana, da possibilidade de partículas quânticas estarem, virtualmente, em dois lugares distintos no que se poderia dizer “ao mesmo tempo” etc. etc. mas acho que as ciências sociais ainda estão muito aquém das ferramentas matemáticas que auxiliam as ciências naturais e talvez estabelecer essas “proposições primitivas” seja, ao menos por enquanto, um passo necessário =)

  12. Daniel · · Responder

    Parabéns, Carlinhos. A quantidade de comentários interessantes aqui é prova da qualidade deste blog. Há tempos não aprendo tanto com uma discussão.
    Faltou apenas a cerveja. Fica a dica: invente a cerveja virtual.
    Abração.

  13. Daniel · · Responder

    Pensando melhor (depois de uma outra cerveja, “pra ficar pensando melhor”), “pelamordedeus” sem cerveja virtual. Já há muita coisa virtual na vida. Para um papo mais profundo, aceito convite para uma cerveja REAL.

  14. Artigo bem fraco(assim como a pesquisa).
    No primeiro gráfico ele chega a conclusão que o PIB é responsável pelo IDH, o que ẽ questionável, no máximo podemos concluir que o PIB influência até um certo ponto, pois na parte de cima do gráfico, temos um bololo com países com PIB bem distintos(ex: EUA e Luxemburgo).

    No segundo gráfico ele chega a conclusão que a carga tributária(% PIB) aumenta faz o IDH aumentar, o que também pelo gráfico é questionável, afinal temos momentos que ela cai e o IDH continua crescendo.

    No ultimo gráfico ele conclui que o imposto aumentou pois o PIB cresceu, mas na verdade a % de imposto sobre o PIB também cresceu, ou seja, o imposto cresceu pelos dois motivos.

    No final ele conclui que para o IDH aumentar o Brasil precisaria cobrar mais impostos, sendo que como descrevi no parágrafo anterior, ele diz que o aumento do imposto vem do aumento do PIB, logo a conclusao correta seria, para o IDH aumentar o Brasil deveria aumentar o PIB e com isso arrecadar mais imposto. E não aumentar a % de imposto sobre o PIB.

    Resumindo, as conclusões dele para cada gráfico não batem.

    1. Olá Victor, concordo que alguns pontos poderiam ter sido explicados com mais detalhes, mas como não gosto de posts longos, muitas vezes acontece de eu pagar o preço da economia de palavras… bom, o certo para o primeiro gráfico seria dizer que a maioria dos países estabelece a regra de correlação entre PIB e IDH, e alguns fogem à regra, chamados de “outliers” em estatística. Perceba que há 189 círculos vermelhos, e apenas uns 15 fogem à curva que identifico visualmente como sendo uma hipérbole (não calculei a fórmula pra ela).
      Eu não disse que o aumento de CT causa aumento de IDH, como explicado para o Pedro acima.
      Adicionei o gráfico PIB per capita vs. tempo para mostrar essa curva que tanto impressiona os europeus. O fato de que o brasileiro que já tinha acesso a serviços públicos em 2001 não se sente satisfeito com os serviços de hoje, por si só, já mostra que o retorno do imposto não foi satisfatório, não é preciso fazer gráficos pra constatar isso e eu não quero convencer ninguém do contrário.
      Eu não disse que o Brasil “precisaria cobrar mais impostos”, eu usei a expressão “poderia”, ou seja, ainda há margem para aumento de CT sem sair da curva de comparação com os outros países. Se isso é uma boa idéia ou não, é outra questão. Melhorou agora?

  15. Anônimo · · Responder

    nada aver kkkkk

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