Passou, mulherada

Pois é, passou. Acabou de passar — ou está acabando, dependendo de onde você está e de que horas eu cliquei em “Publish” — o oito de março. Leconnector não podia deixar a data em branco, apesar do protesto de muitas sobre o que está se tornando esse tal Dia Internacional da Mulher.

Na França ainda há o costume de se dar “parabéns” às pessoas cujo nome coincide com o do santo do dia. A saber, hoje, 9 de março, quem se chama Françoise pode ser parabenizada simplesmente por se chamar Françoise, que é a santa católica de hoje. E como por aqui isso faz parte da cultura, na previsão do tempo do jornal da manhã, o(a) apresentador(a) sempre diz quem é o santo ou a santa do dia. Não, não existe um São Mohammed, nem uma Santa Iemanjá, mas isso fica pra outro post.

Já faz mais de cem anos que o Dia Internacional da Mulher é celebrado. A popularidade da data foi crescendo com o tempo, e apenas em 1996 ela passou a fazer parte importante do calendário da ONU. E até hoje a galera não entendeu direito pra que serve essa marca no calendário, tem gente que acha que tem que dar parabéns à mulher por ela ser mulher, como se ela se chamasse Françoise no dia 9 de março. O que faz muita gente revelar a lógica inexorável de que também deveria haver um dia do homem.

É óbvio que as lojas põem todo seu arsenal de publicidade pra preparar esse dia. E se você também costuma prestar um pouco de atenção à publicidade, já deve ter percebido que o único compromisso da publicidade é com as vendas, ninguém vai querer discordar do cliente em potencial pra dar lição de moral e denunciar atos de machismo. Ou seja, nada como um oito de março pra ver a mulher exposta da maneira que o feminismo mais odeia: pra celebrar a data dessa pessoa sensível, dedicada e dependente que não pode deixar de querer ser sexy, nada mais adequado do que passar na loja de flores, perfumes, roupas ou lingerie pra fazer um agrado. Com a enxurrada de comerciais, o verdadeiro objetivo do oito de março é quase sufocado, e espera-se que a mulher se comporte como a criança no doze de outubro, que ela se comporte direitinho pra ganhar presente. Que o marido a leve pra comer pizza, assim ela não precisa cozinhar nem lavar os pratos.

Hoje perguntei à patroa se que ela queria escrever algo pro blog, ou me ajudar com uma idéia. Ela recusou dizendo que gostaria que esta data não existisse. “Cansada de ver baboseira” — foi o que ela postou no Facebook. Pelo menos uma outra amiga escreveu algo parecido: “Dá uma preguiça esse Facebook do dia da mulher”. E não dá pra discordar. Também posso dizer que vejo muita baboseira sobre o que é “ser homem” e “ser macho” e “ser pai”, tudo no mesmo estilo superficial da publicidade, não só na internet como também nas revistas e na TV o ano inteiro… mas, em questão de diversidade e de intensidade, não dá nem pra pensar em comparar com o que acontece com a mulher no oito de março.

Essa data é muito importante. Ela não foi instituída para que nos lembremos das mulheres que fazem parte das nossas vidas (espera-se que nos lembremos delas todos os dias do ano), nem pra tentar nos convencer de que a mulher é igual ao homem.  A data especial existe principalmente por duas razões: 1) nos convencer de que as mulheres deveriam ter os mesmos direitos dos homens; e 2) nos mostrar que elas ainda não os têm. Entendeu por que não existe um “dia internacional do homem”? É uma das poucas datas no ano em que somos convidados a lembrar que nem tudo é produto, venda, lucro, dívida ou imposto. É uma das poucas datas em que temos a oportunidade de repensar o que somos “nós” em termos de humanidade, e talvez até tentar identificar tudo o que vai contra esse conceito. A publicidade, por exemplo, prova todos os dias ser contrária a ele.

Só espero que no ano que vem essa mulherada que cansou de ver baboseira lance uma contra-ofensiva. Conhecendo a minha aqui, a briga vai ser boa. Só assim pra acabar com o Dia Internacional da Mulher: fazer com que ele não seja mais necessário.

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