Prepare-se para a Era da Sinceridade

“Aqueles de quem não falamos” – do filme A Vila

Quando eu era criança, havia uma lista de assuntos proibidos em casa. Não falávamos deles, eram desses problemas que a gente tenta fazer desaparecer sem resolver, o que a televisão definiu bem mais tarde pra mim como sendo “tabu“. Havia questões como “por que  a gente tem que se comportar melhor na presença do chefe do papai” ou “por que a gente tem que tomar banho e se arrumar pra  parecer rico quando vai à igreja pra ouvir falar do menino que nasceu no curral”, e outras dessas indagações ideológicas de quando a gente tem seis anos de idade. E claro que o sexo também era um desses assuntos, mas pelo menos a história da cegonha já era piada nessa época.

Quando eu era criança, a TV tinha horários. Tinha a Xuxa de manhã, o jornal na hora do almoço, depois alguma novela repetida, e em seguida o filminho da tarde, que nunca tinha uma trama muito complicada, nem sangue, nem mamilos. Depois tinha alguma sériezinha, uma novela, jornal de novo, e mais novela. Mas essa última novela, a gente já não podia assistir. Tinha um risco muito grande de aparecer algum beijo na boca, ou palavrão, ou talvez até uma bunda, então o melhor era a gente ir se arrumando pra dormir. O filme depois da novela, então, esse, só se a gente enrolasse a mãe pra ficar na sala mais um tempinho, e ele normalmente começava com uma voz grave prevenindo os pais do risco iminente de terem que explicar algumas cenas do filme aos filhos sem gaguejar nem ficar vermelhos. E quando algo parecido com a imagem abaixo aparecia na tela, aí não tinha jeito, a gente ia pra cama.

Quem quiser matar saudades pode ler a a crônica “Hora de dormir” de Fernando Sabino e muitas outras aqui (em pdf).

Lembrar desse passado longínquo me faz pensar duas coisas: 1) Caceta, como a gente via TV! Era TV o tempo todo! E olha que eu curtia jogar taco, andar no mato, pescar e roubar goiaba do sítio do Nhô Lau! e 2) A censura me privou de umas boas horas de debate com os meus pais…

E hoje em dia, quando me dou conta de que meu filho de 12 anos já viu mais de um mamilo na TV, dou graças a Deus. Ele não leva a coisa muito na naturalidade, não, dá pra ver que ele fica meio sem graça, afinal o fato de aparecer um par de nádegas na TV não quer dizer que a gente veja isso no busão todos os dias, mas confesso que cada vez que tem uma cenazinha de nudez eu fico otimista, achando que ele não vai ser tão tarado quanto o próprio pai. Vejam bem, não se trata de expor a criança a cenas degradantes de sexo explícito, não estou falando de pornografia, apenas de nudez. (E o fato de eu me sentir obrigado a explicar a diferença mostra o quanto sou tarado: associo a nudez à pornografia sem pensar. Se você também faz essa associação no automático, bem-vindo ao clube. Agora, se você acha que uma mulher amamentando um bebê em público é um atentado ao pudor, então, pode ser eleito(a) presidente(a) do clube: olha aí o que a educação repressiva fez por nós).

De volta à minha infância — calma, já vou parar de falar dela — me lembro de uma diretora da escola primária que adorava repetir aos alunos de 7 a 13 anos que “liberdade não é libertinagem”. Tenho quase certeza de que, na minha classe de quarta série, ninguém sabia o que quer dizer a palavra libertinagem. Tenho certeza de que a diretora não sabia, mas dava um tom tão maléfico à palavra que a criançada ficava apavorada com a idéia de ter libertinagem na escola, fosse o que fosse aquilo. Na época, minha mãe não quis me explicar o que era, mas alguns desses pimpolhos de smartphone na mão de hoje em dia já têm uma idéia muito precisa do significado dessa palavra, e alguns deles devem até achar que a libertinagem faz muita falta na escola

É isso que é muito diferente hoje, e a gente ainda não conseguiu pegar as manhas: a informação fácil — ainda que muitas vezes superficial e volátil — é inédita neste planeta.

Tudo bem que ainda há muita informação protegida, ainda tem muitas imagens que não foram mostradas, muito sigilo pra ser quebrado, e a poluição é muito grande, tão grande que ofusca a vista, mas mesmo assim a humanidade está com tudo na mão pra dar uma boa virada antes de cair no precipício. Explico:

Já me aconteceu — e já deve ter acontecido com você — de presenciar ou conhecer alguém que presenciou um evento que foi divulgado na mídia de maior alcance (chamada por alguns de “grande mídia”, expressão que prefiro  evitar para que não confundam com admiração). Um famoso que morre, um avião que cai, um incêndio em algum lugar… foram poucas vezes, mas em nenhuma delas quem presenciou os fatos concordou com a versão divulgada pela mídia. Sempre há um “detalhe” omitido, uma coisinha a mais aqui ou ali, ou uma escolha de termos que faz a testemunha discordar do jornalista, e desde que o jornalismo surgiu na Terra isso nunca foi um grande problema, as agências de noticias se acostumaram com essa maneira de “informar” e todo mundo era feliz.

— Uma compilação com fatos recentes pode ser encontrada no link :

Diário do Centro do Mundo: Nunca antes na história desse país se mentiu tanto com a desculpa de informar

e também espalhada meio que por todos os lados nas quatro aulas do Curso Avançado de Jornalismo para Editores  —

Mas pra voltar ao artigo do DCM, “nunca se mentiu tanto” é difícil provar. Talvez sempre se tenha mentido da mesma forma, só que hoje a mentira tem pernas mais curtas. E a verdade tem banda larga.

O famoso quadro “Independência ou morte” de Pedro Américo (1888). Clique para ler uma pequena discussão sobre sua veracidade. O uso de imagens para criar, aumentar ou modificar um fato histórico começou muito antes do Photoshop.

Uma maneira de interpretar o título do artigo do DCM seria concordar que “nunca se mentiu tanto” simplesmente porque “nunca se conseguiu desmentir tanto”. Pois a mentira que é repetida sem ser desmentida se transforma automaticamente em verdade. Assim como o fim do Império Romano, que começa a deixar de ser verdade.

Mas por que essas verdades só começaram a ser questionadas agora? Basta lembrar que até poucas décadas atrás, as populações de quase todos os países eram analfabetas. Com o desenvolvimento da tecnologia, a necessidade de mão-de-obra bem treinada foi aumentando. No lugar de apertadores de parafusos, são necessários cada vez mais técnicos e gestores. Ora, esse tipo de mão-de-obra não se faz sem escrita e leitura, e junto com os pesquisadores de tecnologia aparecem os historiadores e estes andam conseguindo ir cada vez mais longe no tempo. Apesar do passado estar cada vez mais longe, os historiadores têm cada vez mais ferramentas pra questionar as antigas verdades. E também tem, é claro, a internet.

A internet acelera o processo. No começo deste mês, uma linha de metrô de São Paulo parou. O secretário dos transportes do estado logo culpou “os vândalos” pelo desastre, e isso foi divulgado pela grande mídia, mas imediatamente comentários como este começaram a pulular nas redes sociais:

comentario saulo 060214

Bom… mesmo se você é fã do secretário dos transportes e dos jornais que publicaram sua acusação, fica difícil ignorar o depoimento de um amigo seu que estava presente na hora (mais difícil ainda quando ele vem acompanhado de uma ameaça de soco na cara! Mas não se assuste, foi só a emoção do momento).

Mas e agora, em quem acreditar?

Conheço gente que escolhe um jornalista em quem confiar e acredita em tudo o que a criatura fala ou escreve. Confesso que até tentei fazer isso quando era mais novo, mas basta a gente começar a tentar cruzar as informações de jornalistas diferentes pra desistir da missão. Acabei desenvolvendo minha própria estratégia, ajudado certamente pela carreira que acabei seguindo. Por isso, aqui segue meu conselho de ouro, vou dizer em quem você deve acreditar:

Em ninguém. Não tenha jornalista preferido, nem âncora preferido, nem jornal preferido. Tenha artigos preferidos. Um bom artigo não traz apenas afirmações, ele também cita fontes e permite que a informação seja verificada:

Um exemplo de artigo ruim: “segundo um relatório da ONU…. blablaba… fonte: http://www.un.org” (o artigo falha porque há alguns zilhões de relatórios naquele site. Se o cara não te diz qual é, é porque não quer que você o leia. Talvez o tal relatório nem exista).

Um bom artigo parece mais com: “segundo o relatório da ONU que o leitor pode encontrar aqui: http://www.un.org/en/terrorism/ctitf/pdfs/wg_protecting_human_rights.pdf  … blablabla… “

Mas e quando as fontes são anônimas? Bom, isso não prova que a notícia é falsa, mas lembre-se que também não garante que ela seja verdadeira. Se a única base do artigo é uma informação anônima, o jeito é arquivá-lo no cérebro com um tag #nãoconfirmável. E assim que aparecer uma informação que você pode confirmar sobre o mesmo assunto, esta deve ter mais força de convencimento. Mas vê se lembra de confirmar mesmo!

E também há as opiniões. Não tenho nada contra artigos que trazem opiniões, mas cabe a nós, leitores, diferenciar opinião de informação, e num mau artigo é difícil saber o que é informação e o que é opinião, o escritor faz como o vendedor a domicílio que diz alguma coisa que ele sabe que a gente vai aceitar como verdade pra ganhar confiança, e em seguida puxa a linha pra pegar o peixe.

É muito importante que o leitor comece a mudar seu comportamento. É a única forma de fazer os jornalistas também mudarem. E pelo que tenho visto por aí, a mudança já acontece. Alguns leitores descobrem sozinhos o caminho da informação, e outros simplesmente desistem de seguí-la. Tudo bem, estes não vão comprar jornal e os jornalistas serão obrigados a escrever bons artigos pra sobreviver. O bom jornalista não será aquele que adquiriu credibilidade, será o que lutará por ela a cada artigo. O jornalismo será muito mais bonito assim.

E ultimamente a mídia de maior alcance finge não ter percebido a mudança. Fica se debatendo com discursos inflamados ou desculpas esfarrapadas, uma após a outra, sempre com a certeza de que o leitor ou o telespectador não vai buscar uma segunda opinião, nem questionar as fontes de informação, e nem lembrar do jornal da véspera.

(Queira por favor me avisar — pode ser com um comentário neste post — se você não estiver vendo um vídeo do Youtube logo acima desta linha. Já é a segunda vez que corrijo o link).

O maior sinal de desespero da mídia de maior alcance é prometer isenção. O leitor maduro sabe que jornalismo isento — ou seja, sem interesses ideológicos — nunca existiu, simplesmente porque sempre existiram patrocinadores. O telespectador maduro ri cada vez que ouve um jornalista prometendo isenção, como se ele e toda a equipe do jornal estivessem trabalhando de graça em defesa da verdade. É por isso que a mídia de maior alcance deve mudar de comportamento, ou desligar todos aparelhos de uma vez, pra não ficar devendo a conta de luz. Como as grandes instituições costumam ser pouco ágeis, tenho a impressão de que ela está com os dias contados.

manchete queda audiencia telejornais

O que me leva a crer que

A Era da Sinceridade está chegando

Uma prova disso é que hoje em dia discutimos sobre o custo de uma Copa do Mundo de Futebol, e queremos saber quem realmente ganha com ela. Discutimos o futuro do que se constrói nessas ocasiões, ao invés de somente sonhar com os estádios prontos.

Também se discutem condições de trabalho (em francês) em um grau de intimidade que chega a surpreender.

Sandra Bréa (1952-2000)

E até os vírus parecem impor a mudança. Antes da AIDS deixar de atingir somente anônimos, ninguém falava em preservativos no horário nobre. Até então, dava pra fingir que pais de família não freqüentam prostíbulos, que famosos não têm vida sexual, que somos todos castos e somos felizes assim. Já ouvi dizerem que o HIV foi a maneira que Deus criou pra punir os homossexuais e infiéis. Mas quando a gente conhece as verdadeira vítimas da doença, prefere pensar que ele veio é pra acabar com a hipocrisia.

Na política, a Era da Sinceridade vai nos fazer deixar de procurar políticos honestos. Ao invés disso, vamos passar a exigir mecanismos de descentralização que impossibilitem a corrupção. Vamos perceber também que as decisões democráticas começam na reunião de condomínio e na associação de pais de alunos. Vamos perceber que não basta ir uma vez por ano apertar um botão e pensar que exercer seu direito democrático se resume a isso. Vamos perceber que a democracia não é nada fácil, mas também vamos perceber que o caminho da facilidade nunca leva a lugar algum.

E vamos parar de julgar as notícias como “notícia boa” ou “notícia ruim”. No lugar dessa bipolaridade, vai surgir a busca de soluções para os problemas em cada leitura. E talvez até passemos a gastar tanta energia nos informando que defendendo nossas idéias. E também não teremos vergonha de dizer “não sei, não estou bem informado sobre o assunto”.

Prepare-se

Está cada vez mais difícil manter as crianças acreditando no Papai Noel. Está cada vez mais difícil impedir que nossos filhos vejam cenas de sexo, violência, homofobia, machismo, cinismo, negligência… a inocência vai embora cada vez mais cedo e você não tem como impedir isso. Mas não se deixe abalar! Prepare-os! Não faça como os pais da época da ditadura, converse com eles sobre tudo. Só vai ser difícil fazer isso se você mesmo(a) não tiver amadurecido suas idéias antes. Seja você um pai ou uma mãe, vai ser muito difícil se você não conseguir olhar pra uma mãe amamentando com naturalidade. Vai ser impossível se você tentar ensiná-los a viver baseados no fingimento de que as pessoas não têm desejos sexuais — que podem ser muito diferentes dos seus — nem cometem erros. A Era da Sinceridade vai nos empurrar a tolerância goela abaixo. E, acredite, vai ser muito bom.

Anúncios

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: