A varanda

Pelo pouco que me lembro dos livros de Física, parece que os átomos são todos cobertos de elétrons que se repelem, e dizem que, se não fossem essas camadas de elétrons, um objeto “entraria” no outro, como um fantasma atravessando uma parede — isso aconteceria porque os átomos são feitos quase inteiramente de vácuo. Caberia mais gente no busão, mas antes que você tivesse tempo de ficar contente, as empresas perceberiam e colocariam ainda menos ônibus nas ruas. Falando sério, o universo seria bem diferente. Um mais um não seriam dois: poderia ser um, ou um vírgula um, ou — por que não? — 1,618… se os elétrons não se repelissem, eu nunca teria conseguido decorar a tabuada do dois.

Mas, pelo que me lembro, os livros de Física não mencionam que, por fora dessa camada de elétrons, todos os objetos possuem uma camada de ideologia. Da bituca de cigarro jogada pela janela ao pote de geléia que a vó preparou, do dicionário ao saco de lixo, tudo, absolutamente tudo é coberto de ideologia. E a ideologia é ainda mais poderosa do que os elétrons. A ideologia não é Deus, mas compete com Ele o tempo todo: pro crente, foi Deus quem criou a ideologia. Para o descrente, foi ela que criou Deus. A ideologia é onipresente.

I am…” — Mesmo hoje em dia, com novas profissões surgindo, e algumas antigas sendo extintas, a atividade profissional continua definindo o ser humano. O detalhe de que não existe forma feminina em Francês para professor, doutor, médico, juiz, cirurgião e outras ocupações é uma discussão ideológica por si só.

E a camada de ideologia que recobre as coisas é bem diferente da camada de elétrons: às vezes ela gera repulsa, outras vezes, afinidade. Ela também recobre sentimentos, atitudes, olhares e palavras: na época do meu avô, “austeridade” significava seriedade e firmeza; hoje em dia a mesma palavra significa cortar gastos públicos dos setores que nunca tiveram recursos suficientes e fazer pobre morrer na fila do hospital. Ao mesmo tempo, a “austeridade” de hoje não é incompatível com jantares suntuosos pagos com dinheiro público.

Mas a ideologia se parece um pouco com a eletricidade: quanto mais ela é ignorada, mais perigosa se torna. Você pode achar que é o dinheiro que faz você levantar cedo pra ir trabalhar, mas é a sua ideologia que define quanto dinheiro você acha que precisa. Também é ela que decide quando e como a gente vai gastá-lo, e até o que faz a gente “se sentir bem”, até certo ponto.

No seu Discurso de Honra, o artista Tim Minchin recomenda que a gente exponha as idéias na varanda para que os outros batam nelas com um taco de baseball. É realmente a melhor maneira de conhecer a própria ideologia. Não se trata de descobrir se suas idéias estão certas ou erradas, pois, afinal, se você vê a vida dessa forma binária, o melhor é continuar achando que está certo(a) e evitar os textos sobre ideologia; trata-se sobretudo de um teste de coerência, pra saber se as suas teorias íntimas — todos temos dessas — são capazes de passar por três níveis de “por quê?” sem causar choro nem ranger de dentes. Trata-se de conhecer a si mesmo(a), de ser apresentado(a) à sua própria ideologia e, obviamente, estar disposto(a) a tentar ajustá-la de acordo com a sua consciência. E logo a gente percebe que não é nada fácil ajustar a ideologia, pois ela já passou muito tempo controlando a consciência sem ser percebida. Depois a gente olha pra fora e percebe que é preciso muito sangue frio pra furar a camada de ideologia que recobre as coisas, pois a ideologia se alimenta o tempo todo, principalmente das nossas emoções. Depois é preciso um estômago de aço pra suportar a radiação proveniente de cada coisa ou conceito cuja camada de ideologia a gente conseguiu furar. Essa radiação que dói no estômago, tem gente que chama de essência. A essência tem sempre esse apelo meio romântico, a gente quer ir ao final da trilha só pra ver o que tem lá, chegar no topo do morro só pra descobrir a vista lá de cima, e só, depois desce de volta; a gente quer conhecer a essência só pra ter certeza de que não está deixando de aproveitar alguma coisa. Mas o grande problema da essência das coisas é que ela sempre mostra pra gente que as coisas são mais complicadas do que parecem, que o buraco é mais embaixo e o primeiro culpado que você tinha mandado pra forca era apenas mais uma vítima — por que a gente se preocupa mais com identificar os culpados do que com evitar que os problemas se repitam é outra discussão ideológica. Daí tem um monte de gente que desiste de provocar a ideologia. Dá muito trabalho e no final ela só mostra que eu estava errado, então pra que mexer com essas coisas?

Muito mais fácil se refugiar na superficialidade. Já há questões que ocupam tempo suficiente, se a gente se põe a escolher a gravata que combina com a camisa, aquela que gastou o equivalente do consumo semanal de eletricidade de alguma aldeia na África pra ser passada. Aí a pessoa pensa que está livre desse vírus maléfico da ideologia, esse que faz tanto estudante abandonar curso e tanto jornalista ser perseguido por governos pelo mundo afora, mas não, ninguém está livre desse vírus. Ao abraçar a superficialidade, a pessoa apenas desiste de controlar a ideologia e passa ser constantemente controlada por ela. Deixa de prestar atenção às histórias e à própria História: passa a ver crianças, idosos, inválidos, excluídos e presidiários como pesos que a sociedade tem que carregar, pois têm que ser alimentados e vacinados às custas do trabalho das outras pessoas.  Passa a defender a “esterilização em massa” das mulheres pobres e a bradar a todos os ventos que o grande problema do Brasil é que ele nunca passou pour uma guerra. Ora, é preciso muito cinismo — o qual não passa de ignorância voluntária — para não se dar conta de que o Brasil sempre esteve em guerra. Uma guerra em que apenas um dos lados é organizado e acumula uma vitória atrás da outra, mas que não termina nunca por questão de conveniência.

“Brincadeiras de Criança” – Pieter Bruegel, 1560

É essa forma de ver as coisas como se o universo fosse uma enorme foto, uma imagem estática sem história alguma, em que não se pergunta de onde veio ou pra onde vai pra nada, que faz algumas pessoas terem um sentimento de vitória quando identificam nesse grande quadro um ou outro criminoso sendo punido, “justiça” sendo feita —

e aí é a sua ideologia que vai recobrir a palavra “justiça” de ideologia uma fração de segundo antes de ela passar pra sua consciência, e é isso que vai decidir se você concorda ou não com a maneira Charles Bronson de viver. É isso que vai dizer se você vai ficar satisfeito ao ver alguém que roubou uma bicicleta ser torturado. É isso que vai definir o seu grau de sadismo.  

Quem controla a eletricidade pode iluminar um país, mas quem controla a ideologia de muita gente prefere escurecê-lo. Porque pra controlar ideologia não basta fazer curso técnico. Não basta comprar as apostilas do IUB nem buscar no youtube a campainha da feira de ciências, aquela com um toco de madeira, uma lâmina de ferro, uma pilha, um prego e uns fios de cobre que a gente nunca consegue enrolar direito. Não, o controle da ideologia é coisa preciosa. Ele pode ser mais ou menos eficaz, dependendo da sutileza do controlador, mas sempre passa pelo uso das emoções. É a velha técnica de fazer a informação pular o muro do senso crítico e cair direto no centro do cérebro, logo ao lado daquele gruminho de neurônios que faz palpitar o coração e guardar alguma coisa na memória muito rápido sem que a consciência perceba a manobra.

Talvez seja por isso que tantos filmes sugiram que a gente “use o coração” ao invés de pensar, e que as propagandas de banco mostrem famílias felizes no lugar das filas dentro da agência, e as de carro nunca mostrem os engarrafamentos nem os motoristas se xingando. Mas não me leve a mal, não tenho nada contra as emoções, muito pelo contrário, dou tanto valor a elas que tento não deixar que sejam manipuladas por qualquer um. Nem pelas jornalistas bonitinhas da TV. Nem pelas que têm nome de rainha da Pérsia. Questão de ideologia, é claro. Não tô afim de virar um dos casos descritos aqui:

hannah arendt

Anúncios

um comentário

  1. Me mostraram este link depois que o post foi publicado, ele mostra o real perigo da ideologia descontrolada:
    http://outraspalavras.net/posts/a-atualidade-brutal-de-hannah-arendt/

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: