Matrix — a vida real por trás da ficção

E aqui começa mais uma série intermitente: “a vida real por trás da ficção”. Quanto ao filme Matrix (Warner), apesar de completar quinze anos (!) em 2014, ainda continua na cabeça de muita gente — e aqui em casa acabamos de assistir mais uma vez pela TV. Pra quem não percebeu (?), há uma certa influência desse filme no Leconnector, daí a idéia de fazer uma análise supostamente original da vida real por trás do enredo e dos personagens. Pra você que acha que Matrix mudou sua maneira de ver o mundo, Matrix — a vida real por trás da ficção vai mudar a sua maneira de ver Matrix. Esta é a realidade que inspirou os irmãos Wachowski. (Não sei se vai ter muita graça pra quem não assistiu, mas tudo bem; se você assistiu e não entendeu, esta pode ser a sua última chance). Comecemos pelos personagens:

Trinity

Trinity é a primeira personagem a aparecer na tela no primeiro filme. Atlética, surpreendente, charmosa, ela mantém os olhos do espectador grudados na tela: todo mundo tem certeza que aquela calça de látex vai rasgar na próxima pirueta. Mas não! É através de Trinity que o herói Neo acaba se convertendo de clubber a maconheiro sem-teto (calma, as respostas virão). Ou seja, ela é importante no enredo. Mas se você acha que se trata de um filme feminista só porque uma mulher aparece vestindo calças, lutando kung-fu e atirando em homens, pode ir tirando a potranquinha da chuva. De acordo com o enredo, em 1999, o feminismo ainda não tinha chegado em Hollywood, e mesmo nesse futuro distante em que a inteligência artificial controla tudo, ele continua bem longe. Na vida real por trás da ficção, os irmãos Wachowski vêem a mulher ideal como alguém forte, perspicaz e bonita que pode aprender a pilotar helicópteros e a atirar com qualquer tipo de arma, mas que mantém seus próprios desejos em segundo plano a vida inteira. Não acredita? Lembre-se que Trinity é submissa o tempo todo, primeiro a Morpheus, depois a Neo. Em nenhum momento do filme a sarada Trinity é capaz de tomar alguma iniciativa importante. Fora que, na única cena de sexo da trilogia, ela vai pra cama com ele, o escolhido, o super-poderoso que desvia de tiros e tudo o mais, enfim, o cara, mas ela não goza: esqueça o agente do FBI que fazia pirar a surfista de Caçadores de Emoção,  Neo prefere ir às nuvens sozinho.

Morpheus

Na vida real por trás da ficção, Morpheus é o líder de um bando de vida-loka que vem vandalizar e entrar em confronto com a polícia no centro da cidade. Morpheus é também o nome do deus dos sonhos do poema Metamorfoses de Ovídio, por isso tem gente que passa a trilogia inteira tentando adivinhar em quê ele vai se metamorfosear, mas ele não muda. Morpheus é o capitão de uma nave que até parece moderna por fora, mas está cheia de alta tecnologia de fundo de quintal. É isso que revela a realidade por trás da “nave”: trata-se uma Kombi 76 que os sem-teto vão usar pra derrubar algum alambrado na cidade, destruir patrimônio público alegando que lutam por seus direitos. Observando o gosto de Morpheus por frases de efeito e pela construção gramatical esnobe, mais a sua mania de controlar tudo, está claro que seu sonho mais íntimo é tornar-se o maior ditador do pós-capitalismo (sim, ele queria se transformar!). Mas até onde a trilogia mostra, seu plano não funciona. É, Morpheus, “conhecer o caminho é uma coisa, trilhar o caminho é outra.”

Neo

Personagem principal da trilogia, ele começa como clubber viciado em cristal. Vitima de insônia crônica, numa dessas baladas ele acaba encontrando Trinity, e é ela que acaba mostrando a esse clubber que passa o dia de terno e gravata na frente do computador que o bolsa família tem bons resultados, sim, e que tudo aquilo que ele tinha ouvido do Jabor e do Reinaldo era baboseira. Com o choque da descoberta, o pobre moço de classe média passa mal e desmaia (ou você acha que a cor da pílula do filme foi escolhida ao acaso?). Ele acorda num pico que os sem-teto invadiram e passa a integrar o grupo. Troca as anfetaminas por drogas naturais e passa a usar óculos escuros até de noite, igual aos outros sem-teto. Pára de trabalhar e não liga de comer canjica todo dia dentro da Kombi. Não é à toa que ele é o mais admirado do grupo: seus poderes especiais são a maneira que os roteiristas encontraram de mostrar que esse ex-clubber é o único do grupo que tem algum dinheiro. Essa revelação vem da vida real do ator Keanu Reeves, ele mesmo um vida-loka inveterado.

E se você ainda lembra da recomendação de não acreditar nas pessoas que não envelhecem, dá uma olhada nisso aqui:

keanu reeves forever

Se depois de ver o filme você passou a sonhar em ser como Neo, é melhor repensar essa idéia. Mesmo na vida real, real, Keanu Reeves é apenas mais um programa que os controladores desenvolveram, e as atitudes de Neo mostram a imagem que os irmãos Wachowski têm da classe média: revoltada e se dizendo motivada para mudar o mundo, ela só faz o que é necessário para que as coisas continuem exatamente como estão.

O Oráculo

“E se eu te contasse que isso aqui que eu tô fumando não é Marlboro?”

Uma interpretação superficial da personagem pode concluir que se trata de uma caricatura da Academia: todo mundo fica ansioso pra entrar lá, e quando entra, passa horas escutando um monte de abobrinhas de um(a) velho(a) que fala beeeem devagaaaar… e não entende nada. E quando a gente sai de lá, acha que tá sabendo mais do que os outros.
Mas ao interpretar os resultados das atitudes do Oráculo, percebe-se que, na vida real por trás da ficção, trata-se de um partido de extrema direita: ele enrola todo mundo com esse discurso de “socialismo nacionalista” e manipula o grupo de sem-teto para que eles façam exatamente o que precisa ser feito para que o controle seja mantido. Também há um discurso fatalista: “você acha que está tomando uma decisão, mas antes de vir aqui a sua decisão já estava tomada.” Daí à genética determinando as atitudes, não precisa nem do pulo. A voz pausada do oráculo do filme é apenas pra que o espectador não o associe imediatamente com os discursos inflamados de Hitler. Lembre-se que é o Oráculo que diz — sem dizer diretamente — a Neo que Trinity paga um pau pra ele. E no final da história, é o rolo desses dois que faz Neo escolher salvar Trinity ao invés de reformular a Matrix. O Oráculo, assim como a extrema direita, é uma das instituições que convencem o povo a fazer exatamente o que os controladores querem, achando que está buscando o melhor pra si.

Cypher

Esse é o maior filho da puta do filme. Ele trai o movimentocypher na cara dura a troco de um jantar num restaurante caro. Na vida real e na ficção, Cypher é um emergente que sonha em ser importante. Cansou de comer canjica. “Quero ser rico” — ele diz, antes de abocanhar um pedaço de carne. “Alguém importante”. Tá na cara que Cypher acredita que, se não fosse pelo sistema de cotas, seria ele o motorista da Kombi. Ele acha que cada um tem que se virar com suas próprias capacidades, e não há nada mais capaz que uma escopeta laser pra roubar o controle da nave. Mas é claro que, por trás dessa imagem de pessoa exigente, existe alguém incapaz de diferenciar um bife de boa qualidade de um coxão duro batido no martelo. Se o plano de entregar Morpheus e ficar rico desse certo, Cypher precisaria ler revistas que lhe dissessem quais são os melhores produtos e o que é “de bom gosto”, assim ele poderia ostentar sem passar vergonha.

O Merovíngeo

Nem precisava ter esse nome, tirado de uma antiga dinastia de reis franceses. Só pelo cenário escolhido como morada desse personagem, um paraíso fiscal europeu, já deu pra sacar que trata-se de um membro dessas famílias que controlam o mundo desde antes do Império Romano. No filme, o Merovíngeo aceita, num primeiro momento, a presença dos sem-teto em seu castelo. Mas assim que o bicho pega e ele percebe que sua mulher tá de olho no ex-clubber, ele manda os seguranças botarem os vida-loka pra correr. Um dos detalhes aqui é que os seguranças gêmeos têm cabelo rastafari e são completamente brancos: uma pequena indireta racial aos guarda-costas de multi-milionários. Toda a seqüência desde a chegada na casa do Merovíngeo até a saída em correria é uma metáfora sobre a filantropia. Ela sempre começa com o rico mostrando que possui muito mais que o pobre. Em seguida, o rico dá algo que não lhe fará a menor falta, esperando receber admiração e desconto no imposto como recompensas. Mas assim que o pobre passa dos limites e começa a querer o braço ao invés da mão, é expulso da forma mais brutal possível. Menção de honra para o papel da Mônica Bellucci, completamente insignificante, mas que concorda com o anti-feminismo de Trinity. Afinal, “atrás de um grande homem…”

Os agentes

Jones, Brown e Smith são obviamente uma representação do poder militar (Marinha, Aeronáutica e Exército; ou mesmo Polícia Militar, Civil e Federal), e o agente Smith é, na vida real por trás da ficção, um general que tenta um golpe de estado de amplitude mundial. Ele falha porque a classe média — representada por Neo em pessoa — acaba defendendo “as máquinas” em troco da permissão pra continuar invadindo o pico Zion.

Zion

A simplicidade de espírito sugere pintar Zion como um grande edifíciomatrix_reloaded_portrait_w532 que o enorme grupo de sem-teto (do qual o grupo de vida-loka de Morpheus faz parte) invade e em seguida tenta defender. Mas se você conseguiu ler este texto até aqui, é porque não busca simplicidade. Ótimo. Zion também é um nome pra Jerusalém, e a nave de Morpheus se chama Nabucodonosor (rei da Babilônia que destruiu o primeiro templo judeu). Antes que você pense que o grupo de sem-teto representa os muçulmanos, lembre-se da festa rave que acontece em Zion pouco antes da invasão pelas máquinas. O som de tambores não permite diferenciar entre judeus e muçulmanos, é o mamilo que aparece na tela em câmera lenta que denuncia que eles não têm nada a ver com o Islã. Trata-se de um grupo que tenta tomar o poder em Israel, mas cujas atitudes podem ser transportadas pra qualquer lugar do mundo. Você pode até associar a invasão de Zion pelas máquinas à desocupação do Pinheirinho se quiser.

Considerações finais

leconnectorougloboHá muito mais detalhes no filme que provam que Matrix não passa de uma grande crítica social subliminar. Por exemplo, o que garante a passagem de mundo entre a nave (a Kombi) e a própria Matriz (a cidade grande) é sempre um telefone fixo. Com o pré-pago eles conseguem até se comunicar, mas não se conectam realmente ao programa principal e nem conseguem sair dele. A escolha de um ator coreano (Randall Duk Kim) para fazer o papel de chaveiro dispensa análises. A mensagem subliminar mais importante de Matrix é que nada que fazemos pode mudar nossa condição de escravos conectados, e que devemos nos contentar do que temos porque as coisas poderiam ser piores. Pode continuar achando que se trata de um bom filme, pois agora que o conteúdo do seu subconsciente foi trazido à tona, basta livrar-se dessas mensagens subliminares.

Aceitamos sugestões de filmes!

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4 comentários

  1. Anônimo · · Resposta

    Muito bom.Matrix é um filme incrível e meio confuso,que nos faz pensar sobre a realidade em que vivemos e sobre como ela é manipulada

  2. […] de sangue. Menção de honra para a dicção de Roz, tão lenta quanto a do oráculo de Matrix. Na mesma linha do oráculo, Roz também não quer deixar de dominar o mundo, ela apenas descobriu […]

  3. Ei cara, vi que voce tava de zoaçao logo no inicio… soh tentou fazer graça e eu ate gostei, mesmo sendo um grande fan de matrix, o que me incomodou voce falando coisas erradas, tipo pra começar voce errou muito ali na Trinity, poha ela nao eh nada submissa cara!!! Muito pelo contrario, eu poderia passar horas aki citando os momentos em que ela toma o controle das situaçoes, e quanto ao neo, ele eh um mero garoto que corre pro colo dela sempre que se assusta com algo, o poder que ele tem eh virtual e aquilo eh um forma filosofica de tratar o paradoxo das coisas, neo eh muito fragil, e Trinity eh o perfeito molde de uma mulher dominadora retratada de modo sutil, pra começar, as roupas dela sao marca das dominatrixes no sadomasoquismo… vei, tu tem prestar mais atença ai viu…

    1. Oi Elliackimn, sem querer abusar do seu tempo, pode me dar um ou dois exemplos de momentos em que a Trinity toma o controle de uma situação? Fiquei curioso.

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