Projeto Gentoma

Escrevo estas linhas pra você que não entendeu o que levou Edward Snowden a enterrar sua própria carreira ao denunciar a espionagem de empresas e governos do mundo inteiro. Também pra você que ainda acha que a espionagem de e-mails e comunicações do Facebook é justificável em nome da proteção das pessoas comuns. E pra você que acha que ela não é um problema grave. E pra você que acha que o Obama só quer olhar as suas fotos na praia e saber se você não andou visitando o Afeganistão nas últimas férias.

Tudo bem que você já deve estar sabendo que a ética anda fora de moda, e que é necessário cada vez mais cuidado cada vez que a gente clica em “accept”, tem até site que se torna proprietário do que você escreve com ele, assim, como se o dono do bar tivesse direito autoral sobre a letra que o Vinícius escreveu no guardanapo (estou falando das Condições de Utilização do Google Documents, tente abrir sua conta lá que você vai ver). Mas aqui o assunto é um pouco mais grave.

Para explicar melhor, é preciso fazer uma introdução à última moda na pesquisa científica: os projetos “oma”. Você certamente ouviu falar do projeto Genoma Humano. Ele terminou oficialmente em 2003, com o seqüenciamento do DNA humano. Depois dele, e baseados nele, vieram os projetos Proteoma e Interactoma. Esses são múltiplos projetos. Pode-se fazer o proteoma de um tipo de câncer, por exemplo, pra saber que proteínas aparecem mais ou menos e daí tentar entender melhor a doença e tentar encontrar uma terapia ou cura baseada nessa informação. Num projeto interactoma, analisam-se as interações entre moléculas numa célula com o mesmo tipo de objetivo.

Essas abordagens são muito diferentes da primeira idéia que aparece na cabeça quando a gente fala de Biologia Molecular. Normalmente imagina-se o estudo de uma única molécula, sua composição e suas funções, e isso também se faz em laboratório. Por exemplo, anos atrás, a proteína que produz o ácido no estômago foi identificada, em seguida alguém desenvolveu uma molécula que bloqueia essa proteína para tratar alguns tipos de gastrite e úlceras. Trata-se do Omeprazol, se quiser saber sobre outros exemplos, clique aqui (em Inglês). No entanto, essa estratégia leva anos e anos pra chegar a algo útil. Além do mais, ela não ensina muito sobre o funcionamento do corpo, exatamente porque cada molécula é estudada individualmente. É como se a gente quisesse entender o funcionamento de uma floresta estudando árvore por árvore, bicho por bicho. Nesses últimos anos, proteomas e interactomas têm sido postos em execução com cada vez mais freqüência. Eles permitem uma visão um pouco menos pontual de cada cenário biológico, mesmo que a posição de cada átomo de cada molécula seja deixada de lado.

Só pra você ter uma idéia, o resultado de um projeto interactoma pode ser algo assim:

Interações conhecidas de uma proteína usada para identificar tumores de próstata (PSA = KLK3 para os bioquímicos). Clique para conhecer o site STRING.

Interações conhecidas de uma proteína usada para identificar tumores de próstata (PSA = KLK3 para os bioquímicos). Pedi ao site que colocasse KLK3 no centro da rede, e o site me mostrou as outras proteínas que interagem com ela em células humanas. Clique para conhecer o site STRING – abre em uma nova janela.

Nessa imagem, cada proteína é representada como uma esfera ligada a outras. Assim estabelecemos redes de interação entre moléculas e podemos até prever que uma molécula interage com outra só olhando seus parceiros conhecidos (Ana e João conhecem Maria, logo é possível que João e Ana se conheçam também). Os alvos mais promissores são mais facilmente identificados quando a gente conhece a rede. Por exemplo, se uma proteína interage com muitas outras numa célula sadia, pode ser perigoso bloqueá-la, pois isso pode causar efeitos colaterais.

Se você clicou na imagem pra ver o site que usei pra fazer a imagem, pode continuar a brincadeira e clicar em outra esfera. O site vai mostrar informações sobre a proteína que você escolheu e até dar a opção de redesenhar a rede de interações dela (“Actions”: “recenter network on this node”).

Isso é o resultado de décadas e décadas de coleta de informação (ainda em curso) sobre proteínas em diversos organismos, um trabalho inicialmente feito no tubo de ensaio, depois com chips cobertos de proteína que tentam “pescar” suas parceiras, e ainda outros métodos. Também entra um trabalho intenso de data mining, em que toda a informação publicada em revistas científicas é interpretada, e finalmente o desenho do site que organiza essa informação de uma forma que qualquer pessoa possa simplesmente clicar pra obter a informação que procura.

Aqui é que vem a idéia do Projeto Gentoma: imagine se cada esfera fosse uma pessoa, e que bastasse clicar sobre qualquer pessoa pra saber quem são seus amigos e inimigos, quais são seus interesses, o que faz da vida e que lugares ela freqüenta. Alguém em possessão de uma base de dados desse tipo poderia saber quem são as pessoas mais influentes numa determinada empresa, num bairro, numa cidade ou partido político, e saberia automaticamente como influenciá-las. Se você não tem interesse em algo assim, é porque não sonha em controlar ninguém. Há quem pagaria muito, muito, muito dinheiro por isso. E a fase de coleta de dados vai de vento em popa.

Quem fornece esses dados? Você. E eu também. A cada vez que o meu site de rede social insiste para que eu “complete o meu perfil” respondendo onde nasci ou onde estudei, ou então quando ele quer que eu diga se alguém é meu irmão ou primo ou colega de trabalho. Ah, vai, você acha mesmo que é só pra que as pessoas o encontrem mais facilmente? Ou que isso é parte da famosa publicidade dirigida? Quantas vezes você já clicou num anúncio publicitário?

Outra forma de fornecer dados ao Projeto Gentoma é navegar pela internet, simplesmente. Os sites trocam informações entre eles através dos cookies. Pra quem usa o Firefox, há plugins (ex.  Collusion) que mostram quem mais fica sabendo do que você anda olhando na web. Sim, também existem plugins que prometem bloquear esse tipo de espionagem, ou então também posso usar um proxy em algum outro lugar do mundo pra não ser identificado, como os hackers fazem. Mas espera aí: sou eu que tenho que me esconder pra que minha privacidade seja mais ou menos respeitada? Mas afinal quem é o bandido nessa história?

“Se você não está pagando por algo, você não é o cliente; você é o produto que está sendo vendido.” — Andrew Lewis

Ninguém ficou muito surpreso quando soube que o governo norte-americano espionava outros governos e tinha acesso a dados de empresas como Google, Yahoo e Facebook. O que fez a redação do Leconnector arregalar os olhos foi a constatação de que essas informações são coletadas por empresas privadas, “terceirizadas” pagas pra coletar informação supostamente e oficialmente confidencial de indivíduos pelo mundo todo. Tudo isso em mídia digital, informação que pode ser copiada em questão de segundos. E por isso não se tem mais controle de quem sabe o quê. Só se sabe que os sabidos são poucos. O que impede que alguém influente nessa empresa use a informação que coleta em seu próprio benefício? Se ele fizer isso, ou se já fez, quem vai ficar sabendo?

Isso posto na mesa, o debate sobre privacidade passa a ser secundário, mas não deixa de ser importante. O direito de fechar a cortina e a porta do banheiro está intimamente relacionado com o direito de ter seus próprios pensamentos, seus próprios gostos e sonhos. Este direito anda sendo minado mais rápido do que a gente imagina e Edward Snowden provou que preocupar-se com isso não é sintoma de paranóia de perseguição, apenas de uma certa aversão pelo fascismo.

A propósito, EU não tenho acesso aos perfis de quem curte a página http://www.facebook.com/leconnector .

Que é gratuita e sempre será. Mas não pelos mesmos motivos.

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2 comentários

  1. Daniel · · Resposta

    Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo
    Que amava Juca que amava Dora que amava
    Carlos que amava Dora
    Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava
    Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava
    a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha

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