Nostra culpa

Eu podia começar este post culpando a falta de tempo, a escassez dos recursos, a dificuldade de contratar mão-de-obra especializada etc, etc, o que não falta é bengala pra atestar nossa cegueira. Como o médico que não se sente responsável pela situação calamitosa da Saúde Pública porque “não é seu trabalho”, Pôncio Pilatos que lava as mãos com a água suja do cinismo. Todo cientista se sente pelo menos orgulhoso das conquistas de seus colegas. Pros raios X, pro bluetooth e pro bóson de Higgs, a gente bate no peito e sente orgulho de fazer parte desse grupo de seres humanos que é o primeiro a saber das coisas e a inventar no sentido mais íntimo da palavra. Pois bem, se temos orgulho do que há para se orgulhar, que tenhamos vergonha do que há para se envergonhar, também. Questão de coerência.

Estou falando do abismo gigantesco que deixamos abrir entre a informação que coletamos do universo e você, cidadão comum, cuja sobrevivência aumentamos com novas vacinas e drogas e conservantes de alimentos; você, que financia a maior parte da pesquisa feita no mundo através de seus impostos.

Deixamos o trabalho de “divulgação científica” para jornalistas, esse povo que precisa dramatizar pra sobreviver. Eles precisam de grandes títulos, matérias atraentes pro grande público, e nós ficamos aqui, pensando na arruela da rebimboca da parafuseta do novo termostato pro microscópio. Sem falar das séries de TV americanas, essas em que todos os policiais são especialistas em tudo quanto é área científica. “Veja só, encontramos um fragmento de perna do vaga-lume Stenocladius chavilista no bolso da camisa do suspeito. Esse vaga-lume só é encontrado no litoral da Venezuela, e o suspeito vai ficar tão abalado com essa prova cabal, que nem vai lembrar que tem direito a um advogado e vai confessar tudo”. Essas séries são obras de ficção, escritas com toda liberdade que o artista tem, mas pra quem não tem idéia de como as coisas se passam na vida real, elas acabam passando como informadoras também. A audiência que todas essas séries têm é a prova de que muita gente quer saber mais sobre investigação criminal – e sobre Ciência em geral – , mas como os cientistas sérios não têm oportunidades, nem motivação, nem competência como showmen pra explicar que as coisas não são bem assim, a má-informação foi aumentando, alimentada por um tanto de dedução e fantasia – o que nossa cabeça faz quando não tem informação suficiente – e olha só no que deu:

–       “A Ciência não tem o menor interesse em acabar com a gripe no mundo. O vírus dá mais dinheiro”;

–       “O vírus da AIDS foi inventado pelos cientistas como arma biológica. O vírus Ebola também”;

–       “O forno de micro-ondas é fruto da tecnologia extraterrestre que os americanos obtiveram em Roswell em 1947”;

–       e outros exemplos que você pode achar pela intenet ou numa conversa de boteco.

‘A primeira vista, esse tipo de desinformação pode parecer inofensivo, ou até divertido pra quem entende um pouco do assunto, mas ele tem um lado nefasto: o de desacreditar a Ciência. Num mundo em que a tecnologia participa de forma cada vez mais íntima da vida de todos, é essencial que todos os usuários tenham pelo menos um pouco de conhecimento sobre ela. Ou então vamos nos enterrar definitivamente como vítimas da tecnocracia, em que um pequeno número de pessoas sabe que botões apertar pra controlar todas as outras.

Este é o primeiro post de mais uma série intermitente do Leconnector. Nesta série, algumas das conquistas e muitas das limitações da Ciência serão discutidas. Até agora, tenho usado este blog pra escrever sobre coisas que não entendo (exceto o texto sobre os beagles motivado pela urgência). A novidade aqui, é que pretendo escrever sobre coisas que conheço um pouco, e, como sempre, aceito sugestões de temas!

Tudo é questão de motivação

Por que se faz Ciência? Essa é uma questão que pode ser respondida de diferentes formas, dependendo do ponto de vista. Dá pra entrar numa discussão romântica sobre a curiosidade do ser humano em entender o próprio Universo, sobre o heroísmo de quem dedica sua vida a resolver problemas da humanidade, salvar vidas e adoçar o café sem engordar, e tudo isso participa um pouco dessa motivação, mas pra responder a essa pergunta com um pouco de profundidade, é necessário lembrar mais uma vez que pra fazer pesquisa é necessário dinheiro. Só o telescópio espacial Hubble, desenvolvido apenas para a pesquisa em Astronomia, custou 10 bilhões de dólares aos EUA (custo acumulado até 2010). Se você acha que é a curiosidade sobre o universo que faz um deputado americano aprovar um orçamento desses, é melhor parar de ver TV. Pra sempre.

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O Caso Roswell citado acima é apenas o começo de uma longa história. Ele aparece logo após o final da Segunda Guerra Mundial (talvez seja necessário mencionar as bombas de Hiroshima e Nagasaki pra lembrar o grau de terror que a tecnologia podia inspirar nessa época). Ainda hoje se discute se o que caiu no deserto era um balão meteorológico americano, um balão espião soviético ou realmente um disco voador, mas pela maneira com que os militares e a imprensa trataram o caso, é até possível que os soviéticos tenham acreditado que os americanos tenham tido acesso a tecnologia extraterrestre. O episódio acabou não tendo nada de trivial.

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Nos anos 50, a força aérea americana trabalhou em vários projetos como este aqui. Nenhum deles foi posto realmente em funcionamento, e hoje diz-se que serviam apenas para amedrontar os soviéticos e ofuscar a espionagem com contra-informação (clique para mais detalhes – em Inglês).

A resposta soviética mais significativa na época foi o Sputnik 1, que arrepiou os cabelos dos americanos em 1957. E a corrida espacial, componente importante da Guerra Fria, continuou com cães e russos e americanos indo pro espaço, e os americanos chegando à Lua… a princípio, você pode até dizer que todo esse espetáculo de altíssima tecnologia e terrorismo tecnocrático não trouxe benefício algum à humanidade, e vou quase concordar com você. O fato é que cada vez que um americano ouvia falar de Sputnik nos anos 50, ele se sentia mais inclinado a apoiar um governo que investisse em pesquisa e desenvolvimento, e é dessa motivação que os governos se aproveitam pra reforçar sua supremacia. Ao mesmo tempo, os cientistas também se aproveitam dela pra obter recursos e fazer Ciência. Um exemplo: pra poder escrever no espaço, sem gravidade, os americanos desenvolveram uma caneta toda high-tech que consegue soltar a quantidade certa de tinta a cada toque no papel. Já os soviéticos usaram lápis. Você pode até achar que os soviéticos foram mais espertos pois conseguiram resolver um problema aparentemente complexo com uma solução simples, mas lembre-se que ao usar o lápis eles também deixaram de desenvolver algo novo. Esse exemplo põe em evidência as diferentes motivações de cada campo: os soviéticos entraram na corrida espacial porque queriam se mostrar superiores aos americanos, e também porque anteciparam que as guerras do futuro deveriam ser travadas no espaço (e são, de uma certa forma). Os americanos tinham exatamente as mesmas motivações, e ainda a motivação capitalista de aproveitar os resultados das pesquisas pra vender produtos. A idéia aqui não é convencer você de quem é “melhor” ou “pior”, apenas de mostrar que os países sempre têm boas razões de investir em Ciência.

Dá até pra ir mais longe no passado e falar das armas mirabolantes desenvolvidas por Arquimedes, da tecnologia bélica dos antigos romanos… dá pra falar do risco que o rei de Portugal assumia cada vez que financiava um novo navegador (os astronautas do século XV), risco que era compensado pelas margens de lucro uma vez que as rotas de comércio e exploração eram estabelecidas.

Até mesmo a pesquisa feita pela indústria privada pode ser estimulada pelos governos, e isso é feito de distintas formas. Na Alemanha não é raro uma tese de doutorado defendida numa universidade pública dar origem a uma pequena empresa em que o novo doutor vira CEO. Se a Alemanha de hoje não depende da exportação de cerveja e de salsichas pra sobreviver, é porque vende tecnologia. E pode falar de crise se quiser, mas esse país fechou o ano de 2013 com mais um superávit que está sendo investigado pela União Européia.

É verdade que alguns países ainda se viram bem com a produção de comodities, mas imagine só quantos navios cheios de laranja o Brasil tem que enviar pra pagar um navio cheio de telefones vindos da China? Além do mais, a produção de tecnologia não depende de território e não se incomoda muito se chove, se faz frio ou calor em Miami ou em Taquaritinga, mas o grande “problema” desse tipo de indústria é que ela precisa de mão de obra especializada. E criar esse tipo de mão de obra exige muito esforço – não apenas financeiro – dos governos. Ele acaba sendo quase exclusividade dos governos porque poucas empresas vão se dedicar a fazer um investimento desse tipo: longo, caro e incerto. Os ex-alunos não vão trabalhar de graça e podem acabar trabalhando pra um concorrente. Já para o governo, um dinheiro que é gasto para fazer com que as pessoas tenham oportunidades de emprego com melhores salários deveria sempre ser visto como um ótimo investimento.

Numa discussão sobre motivação da pesquisa, também podemos discutir seus objetivos. Como explicado acima, o cientista vai onde a grana está. Não se faz mais pesquisa como na época de Thomas Edison ou Louis Pasteur, esses caras que tinham dinheiro pra comprar as próprias ferramentas e até contratar pessoal. O famoso Prêmio Nobel não é corrigido com a inflação e falando sério, hoje em dia, dependendo da área de investigação, 1 milhão de dólares deve dar pra um ano ou apenas um mês de trabalho – sim, boa parte dos cientistas que o recebem ainda acabam torrando em reagentes ou equipamento. Áreas como a produção de energia e tratamento de água não recebem muito dinheiro pra pesquisa. Aliás, a pesquisa nessas áreas ainda é dominada pelas grandes empresas que hoje nos vendem eletricidade e derivados de petróleo, deixamos mais um galinheiro por conta das raposas.

Desnecessário dizer que a pesquisa é financiada por quem tem interesse em seus resultados. Se você é um rico aposentado, vai pensar em dar dinheiro a uma associação que financia pesquisas em câncer ou doenças neurodegenerativas, não vai pensar em febre amarela. Sem falar da indústria farmacêutica, que só faz pesquisa porque conta recuperar o investimento, e alguns tipos de tratamento para câncer, mesmo que paliativos, podem atingir custos astronômicos, inaceitáveis se o assunto fosse dengue.

Hoje nos impressionamos com a rapidez com que o uso de telefones celulares se popularizou, e essas maquininhas se aperfeiçoaram tão rápido, que um celular gratuito de hoje já tem dez vezes ou mais memória do que um computador dos anos oitenta. Imagine só se o mesmo progresso acontecesse na saúde pública!

O lado bom é que a pesquisa não funciona como um prédio em construção: quando se começa um projeto de pesquisa, não se sabe exatamente onde nem quando ele vai terminar. Aposto que os militares americanos nunca pensaram que seu maior projeto secreto de comunicação entre computadores ia acabar nas mãos de pessoas do mundo inteiro (foi assim que surgiu a Internet). Louis Pasteur descobriu os micróbios porque estudava o desvio da luz causado por cristais, e a Ciência está cheia de outros exemplos em que a gente achou o passarinho verde enquanto procurava o peixe vermelho, e descobriu que o passarinho verde era muito mais importante. Essa é uma riqueza negligenciada da pesquisa científica: o risco de achar o que não se procura. Uma pena que ela dependa tanto dos burocratas: isso deve ser discutido em um futuro post, mas já posso adiantar que se Pasteur trabalhasse numa universidade de hoje, dificilmente teria financiamento pra pesquisar micróbios, pois as agências de financiamento responderiam que ele não tem competência nem experiência na área, e que seria melhor continuar com seus cristaizinhos e filtros polarizadores.

Você é parte importante nesse processo. Você pode ajudar a decidir pra que lado a Ciência deve olhar com mais atenção, e se já se decepcionou – como eu – com as revistas de divulgação científica, talvez queira saber o que cientistas da vida real escrevem para o público geral, sem interesse de vender o que quer que seja. Essa iniciativa ainda é bem tímida no Brasil, mas se quiser uma recomendação, veja aqui. Há vários assuntos, e é normal você não se interessar por todos. O importante é você saber que, no meio dessas histórias de russos e americanos com bombas atômicas e milho transgênico e espionagem de Facebook, também há boa vontade.

(Novos posts desta série devem surgir nas próximas semanas, siga pelo tag ou pela categoria Ciência).

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3 comentários

  1. Apelo: os anúncios que você eventualmente encontra neste blog financiam Youtube e WordPress, dois serviços que certamente merecem reconhecimento. Por opção minha, este blog não recebe nenhuma ajuda financeira (eu também não ganho nada escrevendo isto) e, por conseqüência, não é divulgado em outras páginas. Se você acha que um texto merece ser lido por mais pessoas, compartilhe-o em sua rede social favorita, publique em seu site ou envie o endereço da página por e-mail.

  2. E agora temos página no Facebook ! Entra lá pra curtir!
    http://www.facebook.com/leconnector

  3. Mea culpa: quando escrevi este post eu ainda não tinha descoberto http://genereporter.blogspot.fr e http://scienceblogs.com.br (e muitos outros que os dois mencionam). A iniciativa do cientista brasileiro que decide divulgar ciência com as próprias mãos não é tão tímida assim, afinal.

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