Querido Papai Noel,

Já faz muito tempo, uma prima mais velha me mostrou que você não existe. Era a nossa avó fantasiada naquela noite de Natal lá em Londrina, a gente descobriu tudo. Tudo bem, sem ressentimentos. Deixar de acreditar no Papai Noel é um dos ritos de passagem mais importantes da cultura ocidental, quase todos são capazes de lembrar quando e como deixaram de acreditar em você. Uma pena para os que não se lembram, provavelmente eles deixaram de acreditar em você cedo demais.

Eu, aqui, quando percebi que até a minha própria mãe é capaz de participar de um complô pra me fazer acreditar em uma fantasia, passei a tirar de letra os jornalistas, políticos, professores e pastores mal intencionados. Não que eu já não tenha sido engambelado vez ou outra depois disso, mas na média acho que sei identificar um complozinho: a regra geral é esticar o pescoço e olhar o que não querem que eu veja. É esse o desafio, Papai Noel, já que não tenho poderes mágicos que me contam quem foi um(a) bom(a) menino(a) este ano no mundo inteiro. Mas tudo bem.

Pena também que algumas pessoas sofram um trauma tão grande quando descobrem que você não existe, que elas deixam de acreditar na própria família e saem por aí buscando outras fantasias em que acreditar. Bom… não sei se é realmente a intensidade do trauma que conta, vai saber. O fato é que achamos que o problema é em quem acreditar, enquanto que o verdadeiro problema é ter que acreditar em alguma coisa. O problema é a nossa limitação, precisamos de muito tempo e muito esforço pra entender o que nossos antepassados já fizeram no mundo, e as prateleiras já estão tão cheias de registros históricos e opiniões, que é impossível ler tudo, julgar tudo, e tirar conclusões literalmente justas. No final, acabamos escolhendo uma crença pra seguir, e por aí vamos. Mas tudo bem, não pense que estou reclamando. Isso faz do mundo um lugar mais diverso, mais interessante.

Você deve ter visto que o vice-presidente norte-americano esteve na China recentemente. Como você não tem muita tradição por lá (faz pouco tempo que a Coca-Cola se instalou na terra de Confúcio), ele decidiu que seria uma boa idéia despertar o espírito de questionamento nos jovens que tentam ir aos EUA. Fez um discurso em que pediu aos jovens que questionem seus governantes e líderes religiosos. Interessante, ainda mais porque ele mesmo é um político que não existiria se as pessoas não acreditassem nele. Seu discurso faz parte do show em que a esquerda defende os interesses do povo e a direita defende os interesses do país. Isso é o que os políticos e publicitários têm em comum com você, Papai Noel: vocês só existem porque a gente acredita em vocês. Alguns jornalistas também, mas não todos: eles evoluíram num mundo em que a gente também pode existir falando muita besteira, o importante é ser citado. Aquele Reinaldo da revista, por exemplo, acreditado pela direita e criticado pela esquerda, mas lido por todos!

Bom, Papai Noel, não escrevo pra te pedir nada, não, só pra dar notícias. Sabe, conheci uma moça originária da Jordânia que agora mora nos Estados Unidos. Ela é palestina, leu meu post sobre o show e não achou nada de errado lá, e ainda me contou que os líderes palestinos fazem igualzinho aos nossos: eles fingem que têm ideologias pra defender e somos obrigados a acreditar neles; mas ela também me contou que em várias manifestações de palestinos, muitos judeus aparecem pra ajudar, protestar junto. Ela diz que sua melhor amiga é judia. Legal, né? Perguntei se a mídia falava disso no Oriente Médio. “Claro que não” – ela respondeu. Isso também faz parte do show, tentar ocultar os improvisos dos atores. Você também, Papai Noel, que sabe de todos os líderes e empresários que se comportaram mal este ano e não denuncia. Você é conivente. Por um lado até entendo você, já que se você denunciasse, ninguém acreditaria.

Essa discussão sobre judeus e palestinos sempre me faz lembrar de uma curiosidade bíblica. Como você só dá presente pra quem tem dinheiro, imagino que não leia a Bíblia, então deixa eu explicar: é sobre a passagem em que Jesus questiona a lei judaica quando ela diz que somos deuses. “Deus”, no original daquela passagem, é escrito Elohim, palavra também usada pra juízes e outros líderes da época. Elohim é relacionada com as nossas palavras atuais “lodo” e “lama”. Terra e água e Deus, a origem do ser humano de acordo com o Gênesis. Mesmo que você não acredite, é a simples existência dessa palavra que me faz acreditar sobretudo em mim mesmo como juiz, e que me faz concordar com Howard Zinn:

Um poema pode inspirar um movimento. Um panfleto pode desencadear uma revolução. A desobediência civil pode incitar muita gente e levá-la a pensar. Quando nos organizamos em conjunto, quando nos envolvemos, quando nos pomos de pé, e nos pronunciamos colectivamente podemos criar um poder que governo algum pode suprimir.

E é por isso que Leconnector até que foi bonzinho neste ano, mas não prometo nada pro ano que vem.

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2 Comentários

  1. Apelo: os anúncios que você eventualmente encontra neste blog financiam Youtube e WordPress, dois serviços que certamente merecem reconhecimento. Por opção minha, este blog não recebe nenhuma ajuda financeira (eu também não ganho nada escrevendo isto) e, por conseqüência, não é divulgado em outras páginas. Se você acha que um texto merece ser lido por mais pessoas, compartilhe-o em sua rede social favorita, publique em seu site ou envie o endereço da página por e-mail.

  2. […] cada vez mais difícil manter as crianças acreditando no Papai Noel. Está cada vez mais difícil impedir que nossos filhos vejam cenas de sexo, violência, homofobia, […]

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