Distúrbios psiquiátricos coletivos 4 /( | ) o Sadismo

Kristian Krastanov. Memorize bem esse nome, pois é alguém que acabou de provar ao mundo inteiro que não é digno de confiança. Estudante da FFLCH (USP, São Paulo, Brasil), ele deve terminar seu curso em 2015 e pode ser que se torne um professor ou escritor, ou que se inscreva em algum curso de pós-graduação. Kristian divulgou imagens íntimas de sua ex-namorada Thamiris quando esta decidiu terminar o namoro. Se ele foi capaz de fazer isso a alguém com quem teve um relacionamento amoroso, imagine o que não fará com você se cruzar o caminho dele. Cuidado.

Cuidado também com as pessoas que culpam Thamiris por sua difamação. “Você não devia ter se deixado fotografar” – elas dizem. Cuidado porque essas pessoas devem ser as mesmas que culpam as vítimas de estupro por estarem usando roupa curta demais, por andar na rua na hora errada, ou por serem sexualmente atraentes. Essas pessoas têm um senso meio distorcido de culpa, responsabilidade e prudência, o que quer dizer que são capazes de pegar um objeto da sua casa e não se sentirem culpadas de roubo, porque afinal a culpa é sua, foi você quem deixou o objeto dando sopa.

E cuidado mesmo, porque é muita gente. Se hipocrisia fosse crime passível de prisão, seria melhor que todos os presos fossem soltos, e que as pessoas não hipócritas fossem identificadas e colocadas nas prisões, para sua proteção. Sobraria espaço nas cadeias. Imagine se tentassem prender todos os que ofereceram dinheiro para transar com Júlia Rebeca, a jovem de 17 anos que se suicidou após ter sua intimidade divulgada pelo Whatsapp. Ou seja, não basta descabelar o mouse, tem que constranger e difamar – que fique claro que esta frase é contra a hipocrisia, e não contra a masturbação.

A “Tiazinha” conseguiu simbolizar, ao mesmo tempo, o machismo e o sadismo.

Há um certo esforço para a criação de leis contra a divulgação do tipo “caiu na net”, que causa extremo constrangimento a muitas das mulheres e homossexuais filmados – e nunca aos homens heterossexuais que aparecem, digo assim de passagem — e que leva ao suicídio em alguns casos. Esse esforço inclui censurar a internet, a missão impossível à qual os governos se dedicam pra contentar o eleitorado. Enquanto isso, a tecnologia avança, e já é muito fácil filmar ou fotografar alguém sem consentimento, em qualquer situação, ou seja: somos todos vítimas em potencial. Será que a melhor saída é tentar bloquear a tecnologia? Ou simplesmente assumir que as pessoas às vezes falam de boca cheia, ficam nuas, fazem sexo, e que isso não tem nada de mais? Quem perde o emprego por ser fotografado tomando cerveja na praia?

A internet está mais do que cheia de putaria, o que não falta são fotos e filmagens de homens e mulheres que se exibem ou não, mas parece existir um certo prazer em identificar as pessoas que aparecem contra a própria vontade, como se fossem pequenas anti-celebridades, e constrangê-las pessoalmente, pois elas merecem saber o quanto são desprezadas. São as bruxas do século XXI. Acendam suas tochas, vamos queimá-las todas!

“Eu te vi fazendo sexo!” – como se a mulher devesse realmente ter vergonha disso, e o pior é que a maioria sente vergonha, mesmo. E quanto mais eles percebem que a mulher está constrangida, mais insistem em descarregar sua frustração sexual nela. Já vou avisando aos que pretendem continuar agindo assim que a minha filha vai aprender a responder “e você, não anda batendo punheta demais, não?”.

Parar com essa hipocrisia não significa somente acabar com os suicídios de jovens que foram filmada(o)s, significa também mostrar a nossos filhos que o sexo faz parte da vida e existem maneiras bem saudáveis de lidar com ele, e que eles podem até usar a internet pra ter idéias. Quem sabe alguns tipos de estupro também não seriam inibidos se homens e mulheres fossem menos reprimidos sexualmente? Essa é uma discussão em curso.

Se a repressão acabar, alguns vão precisar encontrar outras formas de diversão. Mas não se preocupe, o que não faltam são formas de sadismo pra gente rolar de rir. Se ainda não viu, o vídeo abaixo associa a diversão ao sadismo:

Aos 03:22, você viu Marianna Armellini dizer que a gente ri de alguém que cai na calçada porque “aquilo é uma quebra”. Você concorda? Quer dizer que se você estiver andando numa rua silenciosa, e de repente passar uma moto, você vai rir? Isso também é uma “quebra”, a rua que estava silenciosa e parada muda de estado rapidamente, mas você não acha isso nada engraçado. Por quê? Porque o que faz rir de alguém que cai na calçada não é a dita “quebra”: é o sadismo.

Primeiro é preciso tentar ser justo: nem todos riem de pessoas que caem na calçada. Nem todos dão audiência às videocassetadas, e essas pessoas são frequentemente consideradas “chatas” ou “santinhas”. Pois é que o sadismo ainda não as contaminou a esse ponto, o humor delas não depende do sofrimento alheio. Essas pessoas nunca vão dizer “bem feito”, que é algo que dizemos sempre que algum mal é feito a quem não gostamos. E o fato delas serem capazes de viver sem se divertirem da desgraça alheia é tão inaceitável para os sádicos, que elas se tornam tão desprezíveis quanto a moça que tem uma vida sexual ativa e descomplexada; o sadismo coletivo nasce da inveja.

No vídeo, você percebeu que há duas formas de humor postas em evidência: uma forma divulgada por seus defensores como “politicamente incorreta”, em que as pessoas riem de “piadas” baseadas nos velhos estereótipos que associam negros a macacos e mulheres a objetos sexuais, por exemplo, como se fosse uma forma de rebeldia – mas que se resume a agredir grupos de pessoas que já sofrem há séculos; e outra forma de humor em que os piadistas tentam ser originais e encontrar outros alvos para suas piadas. Um dos pontos citados no vídeo é que toda piada tem um alvo. Nem vou tentar negar isso, que aliás é uma prova de que somos todos mais ou menos sádicos, mas, assim como a energia sexual, nosso sadismo também pode ser direcionado pra chicotear alvos mais interessantes, tornar-se uma verdadeira rebeldia, ao invés de continuar chutando cachorro morto. Só que isso só tem graça pra quem já amadureceu a ponto de não se divertir mais com bullying.

Conhece aquela do rico industrial que, logo antes de morrer, disse ao filho: ‘Te deixo tudo que consegui com meu próprio esforço‘? HAHAHAHAHAHA

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3 comentários

  1. Apelo: os anúncios que você eventualmente encontra neste blog financiam Youtube e WordPress, dois serviços que certamente merecem reconhecimento. Por opção minha, este blog não recebe nenhuma ajuda financeira (eu também não ganho nada escrevendo isto) e, por conseqüência, não é divulgado em outras páginas. Se você acha que um texto merece ser lido por mais pessoas, compartilhe-o em sua rede social favorita, publique em seu site ou envie o endereço da página por e-mail.

  2. […] satisfeito ao ver alguém que roubou uma bicicleta ser torturado. É isso que vai definir o seu grau de sadismo. […]

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