Guinadas às cegas – sem ironia

Algo bem curioso aconteceu nessas últimas semanas. Foi interessante porque tirou a rinha direita vs. esquerda da mesmice, pelo menos por alguns minutos do dia. Graças ao jornalista Antônio Prata, com seu texto ‘Guinada à Direita’. O autor parece ter tentado escrever um texto que fosse divertido, principalmente para os de tendência ideológica à esquerda. Ele começa com uma breve introdução, então lança, falando do Brasil:

“Como todos sabem, vivemos num totalitarismo de esquerda. A rubra súcia domina o governo, as universidades, a mídia, a cúpula da CBF e a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, na Câmara. »

Bom, quem já não começou a rir aí, deve ter mudado de página. Ou pelo menos era o que eu e – pelo que ele declara – o próprio autor pensávamos que ia acontecer. Mas não. Seu texto continua com mais e mais exageros e informações descaradamente falsas, e termina com

« Do contrário, seguiremos dominados pelo crioléu, pelas bichas, pelas feministas rançosas e por velhos intelectuais da USP, essa gentalha que, finalmente compreendi, é a culpada por sermos um dos países mais desiguais, mais injustos e violentos sobre a Terra. Me aguardem. »

E o curioso é que a ironia parece não ter sido detectada por todos os leitores. Pelo contrário, suscitou uma enxurrada de mensagens de apoio, de felicitações pela “coragem” em “denunciar” o abuso canhoto que assola o país. Foram essas mensagens que mais me chamaram a atenção.

De fato, a ironia é uma linguagem muito difícil, mesmo nas comunicações pessoais. Muito frequentemente, ela passa despercebida e causa mal-entendidos. Outras vezes, parece arrogante e gera aversão. Os manuais de redação parecem concordar em recomendar bastante cuidado no seu uso.

Tanto foi que, na semana seguinte, Antônio Prata lançou um texto pra esclarecer, dessa vez sem ironias. Trata-se de “Abaixo, a ironia”. Veja aqui um trecho:

“Na crônica de domingo, achei que havia carregado o bastante nas tintas retrógradas para que a sátira ficasse evidente. Descrevi um quadro que, pensava eu, só poderia ser pintado por um paranoico delirante. »

Pois a paranoia parece ter muitos adeptos. No primeiro texto, Antônio tinha subestimado o nível de desinformação de seus leitores. Subestimou também a tendência que muitos têm de se deixar convencer por tudo o que leem, essa imensa sede de informação que é frequentemente satisfeita por águas insalubres. No segundo texto, ele diz que o mal-entendido não foi intencional, mas lembre-se da vírgula no título. Quaisquer que tenham sido suas reais intenções, o fato é que o primeiro acabou tendo muita audiência no público “de direita”. O músico Roger o divulgou no Twitter com os dizeres “Caralho, esse tem culhão”. Outros comentaram o segundo texto dizendo que o autor estava “arrependido” de ter escrito o primeiro, e que agora estava tentando “desmentir”.

Aqui na redação do Leconnector (composta por todos os meus quatro ou cinco neurônios, mais a participação ocasional da minha esposa, que hoje tirou licença), o consenso foi de que o primeiro texto fez tanto sucesso na direita porque diz o que ela quer ouvir.

Isso é conhecido. Temos a tendência de ir atrás do que já sabemos, como se precisássemos de reforço na informação que já ocupa sua caixinha especial na memória, pois buscamos conforto a maior parte do tempo. Pouca gente vai procurar ouvir “o outro lado” numa discussão, pois isso frequentemente causa desconforto, e ainda traz o risco – imagine que barbaridade – de nos fazer mudar de idéia. Fora que cansa, isso de ter que usar o cérebro o tempo todo na hora de ler alguma coisa. Mesmo com o Google a alguns centímetros na mesma tela, pouca gente vai buscar “totalitarismo de esquerda” pra saber o que é.

Muitas celeumas são mantidas pela falta de espírito crítico de defensores de um ou ambos os lados. Os defensores do criacionismo, por exemplo, parecem pensar que a ciência é baseada na fé, e que o criacionismo deve ser ensinado nas escolas, lado a lado com a teoria da evolução das espécies, de forma que o aluno possa depois “decidir” em qual das duas teorias ele “acredita”. E o pior, não posso culpá-los, pois foram educados no mesmo sistema que eu. Um sistema autoritário: “foi o professor que disse”. Mais de uma vez presenciei enganos de autoridades do conhecimento. Uma amiga, professora de Biologia, contou inconformada que o pai de um aluno veio reclamar de uma pegadinha na prova sobre enzimas: “A bile é uma enzima, sim!” – ele bradava na reunião de pais – “eu sou médico, e estou dizendo que a bile é uma enzima!” (só que não é, e felizmente a maioria dos médicos não concorda com ele).

Lembro-me da primeira vez que vi um artigo científico, desses que relatam experimentos que foram feitos, com que intenção, de que forma, e que conclusões podem ser tiradas. Foi um choque. Ele trazia mais questões do que respostas, e ao invés de afirmar algo com autoridade, mostrava como o mundo real se comportava e tirava suas conclusões a partir daquilo, somado ao que já tinha sido concluído com experimentos publicados em outros artigos, inclusive os que não concordavam com a teoria. Bem diferente de alguém que diz “tenho mais experiência do que você, e estou dizendo que é assim e pronto”. Fantástico. E uma pena que eu só tenha tido contato com isso no primeiro ano de faculdade. Todos deviam ter acesso e capacidade de entender um trabalho científico básico. Alguns são tão bem escritos que poderiam ser mostrados a alunos de oitava série. Na escola, poderíamos aprender com o que realmente foi feito para que se chegasse a uma conclusão, ao invés de ter que “acreditar” no professor ou no autor do livro. Veríamos que alguns pontos, como a evolução das espécies, já foram tão batidos e rebatidos que é muito difícil imaginar uma possibilidade de a teoria estar completamente errada – mas veríamos também que alguns detalhes teóricos ainda são estudados e podem trazer informação muito útil. Já outros assuntos, como a divisão celular e a resposta imunológica, ainda têm muito a ser descoberto, e são transmitidos na escola como se fossem completamente conhecidos. Ora, só pra você ter uma idéia, ainda estudamos que moléculas participam nesses eventos, e volta e meia se descobre uma molécula nova, ou então descobre-se que uma molécula que já tinha sido estudada não faz exatamente o que se pensava. As certezas são menos certas do que parecem, mas o aluno da oitava série não sabe o que é mais certo ou menos certo, ele é simplesmente obrigado a engolir tudo aquilo como verdade, ou seja, pra ele, ciência é o mesmo que uma religião, e a religião pode ser escolhida, pelo menos no Brasil.

Imagino que quem tenha feito estudos superiores em outras áreas concorde, tomando-se o cuidado de adaptar os assuntos. Só de assistir documentários de História me parece que o drama é exatamente o mesmo que na Biologia: muitos assuntos dados como certos na escola ainda são muito nebulosos.

Intencionalmente ou não, Antônio Prata acabou expondo um quadro em que as pessoas que defendem a ideologia de direita têm menos senso crítico. Pra provar que o quadro é falso, algum jornalista de direita poderia fazer o mesmo, e escrever uma pegadinha pro pessoal da esquerda (se você conhece um texto assim, faça o favor de me indicar). Ou que os dois lados começassem a trocar desafios cerebrais. Não resolveria a eterna briga, mas com certeza a tornaria mais interessante. Talvez com uma briga mais intelectual, poderíamos perceber que existem boas idéias nos dois lados, e que todos ganharíamos se apoiássemos as que são mais adequadas para o país, sem nos preocupar com a origem delas.

Escultura “Os Candangos” (Bruno Giorgi, 1959)

Quer exemplos?

Voltando à Biologia, as pessoas que atacam o criacionismo humilhando seus defensores poderiam simplesmente lembrar que a teoria do Big-Bang é, na sua essência, criacionista. “Faça-se a luz” foi provado cientificamente, e toda essa conversa sobre a autoridade do sistema educacional foi pra mostrar que a verdadeira ciência é, acima de tudo, humilde o bastante pra mudar de idéia quando os argumentos contrários são mais fortes. Sem ironia alguma.

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4 Comentários

  1. Binah Ire · · Responder

    lá vai

  2. Valeu Binah, mesmo que eu ache que tenha faltado massa cinzenta ali… mas tudo bem.

  3. […] Guinadas às cegas – sem ironia Guinadas às cegas – sem ironia […]

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