Como abortar revoluções | Curso Avançado de Jornalismo para Editores – Parte 4

Olá meus caros alunos aspirantes a editores. Hoje continuamos o curso com uma dica super avançada que exige prática e experiência com as prioridades básicas do jornalismo. Por isso, se você está caindo aqui pela primeira vez, pode começar pela Parte 1 (Prioridades: “Quantidade” e “Propaganda”).

Não esqueça que sua maior prioridade é manter seus ricos fomentadores no controle da população. Os editores mais experientes têm feito um ótimo trabalho, por isso tá tudo sob controle. Mas eles vão se aposentar um dia, e terão que ser substituídos. Se você pretende se candidatar a grande editor, o melhor é se esforçar para acompanhar este curso e praticar bastante.

O exemplo Brasil

Veja, por exemplo, a situação recente no Brasil:

Brucutus perdidus – aprenda a cultivar esta espécie de população

Essa foto é apenas uma amostra das manifestações recentes no Brasil (“PEC 37” era uma proposta de lei sobre as funções de algumas das várias polícias brasileiras). Cada manifestante tem uma reivindicação diferente a trazer, o que vale é a criatividade. Há tantas prioridades que a própria noção de prioridade desaparece. Mais do que isso, o brasileiro foi tão bem trabalhado nessas últimas décadas, que os manifestantes lutam entre eles:

(Manifestantes com bandeiras de partidos sendo caçados de uma manifestação em Natal.)

Um pequeno resumo histórico para você, aluno estrangeiro: desde que o Brasil existe, períodos de ditadura se revezam com alguns intervalos de democracia. O importante é que a máquina administrativa nunca foi realmente mudada nos quadros que lidam diretamente com a população, e que a mídia sempre soube fingir defender os interesses do povo. Um cenário em que fica mais fácil desacreditar a democracia.

Outra coisa que ajuda bastante é ter uma população que já está estressada pela vida em grandes cidades, com serviço público de baixa qualidade, ou seja, com alta agressividade basal. Pra fazer alguém sair atirando nos outros, não basta muito. Enfim, isso só pra dizer que a mídia não é a única responsável por essa situação, mas mesmo assim sou muito orgulhoso do trabalho que temos feito.

Além do mais, isto aqui não é a Europa: aqui, a simbiose entre poder e mídia é obrigatória. Veja um pequeno exemplo sobre o que acontece com quem não anda na linha: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed769_uma_historia_do_jornalismo_no_brasil

Você, jovem editor, pode se assustar com a possibilidade de milhões de leitores de repente perceberem como têm sido enganados todo esse tempo, por quem, e por quê. Se isso acontecer, você e seus patrocinadores serão certamente trucidados pela barbárie em questão de minutos. A população é numerosa e boa parte dela não tem mais nada a perder, mas não se deixe amedrontar! É nessas horas que a gente tem que fazer apelo à História, os romanos já passaram por isso e foram especialistas na técnica explicada hoje:

Divide et impera – Divida e conquiste!

Faça de tudo pra convencê-los de que vingança é essencial.

A idéia é simples: basta fazer esses brucutus brigarem entre eles ao invés de atacarem os seus fomentadores. Como editor, você tem a obrigação de motivá-los a se odiarem. A maneira mais fácil é servir-se das fronteiras que já existem entre as pessoas, ou seja, se são homens ou mulheres, idosos ou jovens, negros ou brancos, corinthianos ou palmeirenses etc. Mas isso anda meio fora de moda, algumas pessoas começaram a perceber a estratégia, ficou chato. A nacionalidade é outra fronteira fácil de explorar, mas ela muda com o tempo. Por exemplo, até os anos 90, os russos apareciam como vilões em filmes americanos. Isso mudou com o fim da União Soviética. Antes deles, a moda era achincalhar os alemães. E por aí vai. Mas tem cada vez mais gente percebendo essa jogada também, e hoje em dia algumas pessoas têm amigos em diferentes países, o que quebra um pouco esse clima. Mesmo a religião, que funcionava muito bem até recentemente, tem perdido o poder de criar bons vilões de cinema, os muçulmanos reais começaram a ser vistos pelos não-muçulmanos, e estes já não vão acreditar em qualquer coisa que você diga daqueles.

Erga suas próprias fronteiras

Uma maneira mais elegante, no entanto, é criar essas fronteiras. É fácil: basta identificar uma discussão, uma polêmica, algo que seja capaz de gerar duas opiniões distintas, e criar ou divulgar uma palavra que distinga um ou dois grupos. Por exemplo, um leitor brasileiro acabou de inventar o termo zooxiitas para designar pessoas que invadem biotérios para libertar animais usados em experiências. Genial! E O Globo nem precisou pagar por isso!

Perceba que o objetivo é fazer com que a cada vez que dois ou mais grupos se reúnam para uma discussão,  esta se torne um campo de batalha em cada um se esforça pra provar que está certo. Por exemplo, alguns desses jovens que acham que podem exigir alguma coisa quebraram vidros de um terminal de ônibus. Para cobrir o acontecimento, não use:

“Revoltados com o preço do transporte público, jovens quebram vidros de terminal e ateiam fogo em ônibus”

Isso é fraco e ainda traria simpatia, pois lembra a motivação dos rapazes e pode até fazer o leitor pensar que eles têm razão. Não! Faça como a Veja:

Captura de Tela 2013-10-26 às 15.08.53

Veja que obra-prima:

  1. “Vândalos” faz o leitor pensar que os rapazes são assim, sempre farão esse tipo de arruaça, não importa o que a sociedade faça por eles;
  2. A cada vez que um verbo aparece associado aos vândalos, está na voz ativa; já o policial, este, “ficou ferido” (lembra da explicação sobre voz passiva e ativa da Parte 2 do curso?);
  3. Os vândalos são ativos até pra “entrar em conflito com a PM”. Excelente! A polícia estava lá tranqüila, foram eles que vieram ferir o policial, pois, afinal, são vândalos.

Criar palavras e definir grupos é ótimo: as pessoas esquecem que sofrem com os mesmos problemas. Ao invés de tentar resolver esses problemas, os grupos batalham entre eles e deixam os proprietários do seu jornal tranqüilos.

Quando não dar nome aos bois

Fica difícil lutar contra um grupo se este não tiver nome. Aliás, é por isso que quem realmente sustenta o seu jornal, revista, portal ou estúdio nunca deve aparecer. Mas não se preocupe, os leitores nunca se perguntam quem são seus maiores acionários, proprietários ou patrocinadores. Se você não disser, ninguém vai saber.

O exemplo França

Não se deixe amedrontar, nem se o seu público alvo parecer mais esperto porque lê mais. “Ler mais” também pode querer dizer que a pessoa é manipulada mais vezes por dia. Observe o exemplo francês:

“Mulheres – A arma do sexo (subtítulos: o caso Iacub, as novas amazonas, o grande mal-estar dos homens)”

“Islamismo: o perigo comunitário (subtítulos: o mal-estar da esquerda; o crescimento da islamofobia)”

Como você vê, os editores franceses também sabem se servir da técnica “Tocar o Terror”, como visto na Parte 2 deste curso. Mais do que isso, conseguem aterrorizar até usando imagens de mulheres desarmadas, as primeiras usando roupa de menos, as seguintes, roupa demais. A idéia de grupos que se confrontam está presente no título e nos subtítulos. Você também deve ter percebido que os franceses usaram a palavra malaise (“mal-estar”, “desconforto”) nas duas capas.

A Alemanha segue um padrão parecido, é assim que conseguimos fazer com que os franceses e os alemães pensem que sustentam todos os países europeus que foram forçados a pegar dinheiro emprestado depois que os bancos — também franceses e alemães, em maioria — fizeram a festa e inventaram algumas crises. Criar fronteiras na Europa é fácil. Na verdade, já há tantas fronteiras por lá que o que fazemos é simplesmente reforçá-las. Mesmo dentro dos países, há países. Nada mais fácil do que colocar berlinenses contra bávaros, parisienses do centro contra os da periferia, (antigamente fazíamos “rive gauche” contra “rive droite”)…  enfim, acho que você já entendeu a idéia.

Conclusão

Lembre-se sempre da dica de hoje. Divida e conquiste (ou “divida e mantenha”). Divirta-se dividindo o campo inimigo, de forma que eles não consigam resolver seus problemas. Abaixo seguem alguns exercícios pra você praticar até a próxima aula. Até breve!

Exercícios

Para exercitar a sua capacidade de criar grupos, observe o exemplo abaixo e dê sua interpretação nas imagens seguintes. Se quiser, deixe sua interpretação como comentário deste post. Lembre-se: não há resposta correta, o exercício é julgar e escrever (ou não) sua opinião:

Exemplo

iv-marcha-nacional-contra-a-homofobia

Impacto: médio (boa escolha de cores, bom desenho, elementos chamativos)

Possibilidade de criação ou reforço de grupos: grande (confronto evidente)

Possibilidade de resolver o problema (homofobia): pequena (quem defende a religião não será convencido a combater a homofobia) 

Teste 1

1235524_566861163402900_1297744726_n

Impacto:

Possibilidade de criação ou reforço de grupos:

Possibilidade de resolver o problema (invasões de biotérios por grupos de defensores de animais):

Teste 2:

"Sou puta, sou negro, sou maricas, sou árabe, sou sulamericano, sou mulher. O diferente é você, imbecil"

“Sou puta, sou negro, sou maricas, sou árabe, sou sulamericano, sou mulher. O diferente é você, imbecil”

Impacto:

Potencial de criar ou reforçar grupos:

Potencial de resolver o problema (racismo):

Teste 3:

de "Marcha das Vadias - Barretos-SP" no Facebook

de “Marcha das Vadias – Barretos-SP” no Facebook

Impacto:

Potencial de criar ou reforçar grupos:

Potencial de resolver o problema (machismo e/ou estupros):

 

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3 Comentários

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