A verdadeira questão

Já me chamaram de cientista insensível e tudo o mais, mas a verdade é que essa história dos beagles de São Roque não me sai da cabeça. E de tanto deixar a idéia rodar de um lado pro outro (“deixar” é modo de dizer, porque não tive escolha), acabei percebendo uma coisa: nós, biólogos, não entendemos nada dessa revolta.

É verdade, ficamos aí tentando mostrar pras pessoas que os testes em animais são importantes e coisa e tal, que nenhum técnico de laboratório sente prazer em torturar bichinhos com agulhas, bisturis ou comida envenenada, e tudo o mais, mas a questão não é essa. Nunca foi. Ao invés de tentar resolver o problema expondo argumentos racionais, devíamos chamar os marketeiros pra explicar a história. Eles viriam, se nós, biólogos, tivéssemos algum dinheiro. Essa é uma questão de marketing, de mind share, de impacto visual. Essas coisas que pouquíssimos biólogos conhecem, e não  pense que sou um deles.

Descubra aqui por que a barata coça as antenas o tempo todo (em Inglês)

Na verdade, todo estudante de biologia, farmácia, veterinária, biomedicina  e cursos similares se choca pelo menos um pouco quando descobre que usam beagles em pesquisa. Alguns se surpreendem até com o uso de coelhos. Só depois de anos é que esse choque passa. Isso porque começamos a trabalhar com diferentes organismos dependendo da especialidade de cada um, e acabamos simpatizando com todos eles. É verdade, conheço gente que trabalha com baratas e acha que elas são as mais magníficas  obras da natureza. É óbvio que a barata não vai buscar a coleira pra pedir pra passear, nem pula no colo dessa bióloga quando ela chega no biotério, mas o fato é que, depois de anos trabalhando com esses insetos, ela acabou conhecendo coisas sobre eles que pouca gente conhece. Ela sabe qual a comida preferida delas, a que horas costumam fazer as coisas de sua vidinha de bicho escroto, e até, se bobear, o que significa cada movimento de antena quando elas ficam paradas encarando a gente. O conhecimento trouxe intimidade, até carinho e apego, isso que muitos proprietários de animais confundem com amor.

Descubra o que é leishmaniose (cuidado, algumas imagens podem chocar)

No final, quem passa muito tempo com vários tipos de animais, como esses profissionais de ciências biológicas que citei, é capaz de criar intimidade com qualquer um deles. Eu trabalhei com culturas de Leishmania e adorava aquelas parasitas (até quando as chamo de parasitas, é com carinho). E é por isso que a gente passou completamente batido quando a história de São Roque veio à mídia. A gente não entendeu que o problema, o verdadeiro problema, esse que nem quem está revoltado percebe, não é o uso de animais em pesquisa. Isso todo mundo sabe que existe, mesmo não vendo todos os dias como alguns de nós vêem. O verdadeiro problema, colega, é o beagle.

O beagle tem uma imagem pública imbatível. Ninguém pode parecer mais bonzinho, mais inofensivo, mais feliz e menos merecedor de tortura que um beagle. E vem um desgraçado de um cientista com essa desculpa de querer fazer bem à humanidade, e injeta produtos tóxicos no bicho!?!? É de fazer até o Chuck Norris chorar, fala sério.

O beagle foi escolhido como cobaia numa época em que ninguém ligava quando animais eram maltratados em circos, filmes, aulas de ciências, zoológicos e criadouros. Milhares de protocolos foram estabelecidos, os resultados obtidos com um experimento passaram a ser comparados com os resultados do experimento anterior, e foi ficando cada vez mais difícil mudar de modelo. Enquanto isso, a opinião pública foi evoluindo em direção à simpatia aos animais, surgiram as sociedades de proteção aos animais, e depois as leis contra os maus tratos… e a ciência até tentou acompanhar essa evolução criando comitês de ética e diretrizes sobre maneiras menos trogloditas de sacrificar animais, mas isso não foi suficiente.

O que se fez, também, foi tentar esconder da sociedade esse lado negro dos bastidores da pesquisa e desenvolvimento. Os laboratórios de experimentação animal começaram a ser instalados em áreas escondidas dos institutos, às vezes até fora das cidades. Quem trabalha com animais foi orientado a não comentar com os vizinhos e amigos, como se o que fizessem fosse algo realmente vergonhoso. Mas não adiantou, as pessoas normais, essas que têm o direito de jogar Candy Crush assegurado pelo sacrifício de animais que testaram a segurança das drogas, vacinas, conservantes de alimento,  pesticidas, radiações eletromagnéticas, e até da tinta usada pra pintar o teclado do computador, acabaram descobrindo o sacrilégio de se misturar beagles e camundongos, como se essas duas espécies fossem da mesma laia.

E agora?

Depende. O meu lado biólogo tenta inocentemente planejar uma saída, ele tenta buscar, na curta lista de espécies que conheço, um substituto pro beagle, outro animal que possa dar respostas parecidas, mas que não tenha essa carinha fofa, esse comportamento de anjinho travesso, esse carisma insuperável que põe humanos contra humanos quando o assunto é um beagle em sofrimento. Ele também tenta argumentar com as pessoas, tentando informá-las de como os testes acontecem (até onde sei), e sobre como alguns dos testes são importantes, e como é difícil poder separar os testes que merecem dos que não merecem usar tantas vidas animais. Até tenta cogitar um mundo sem qualquer tipo de teste em animais, um mundo em que a sobrevivência das pessoas não dependa da evolução da tecnologia e do crescimento econômico, tal como uma mega-Amway, que é como ele funciona hoje em dia.

Já o meu lado aspirante a marketeiro diz que não vale a pena queimar as pestanas com isso, porque é só fogo de palha. Ele lembra ao meu lado biólogo a história das sacolas plásticas nos supermercados de São Paulo, por exemplo. As pessoas não se deixaram convencer pela imagem de milhares de tartarugas marinhas se sufocando com sacolas plásticas, elas não foram capazes de mudar de comportamento e começar a levar as próprias sacolas ao supermercado. A idéia não pegou. Assim como deixar o carro em casa e andar pela cidade de bicicleta, ô idéia difícil de pegar. Meu lado aspirante a marketeiro tem certeza de que você que não é biólogo nem vegan terá esquecido toda essa história em menos de duas semanas, e até aposta que haverá um pico de inscrições em grupos vegan nos próximos dias, seguido por quase 100% de desistências em menos de 60 dias. Ele promete que vai tirar a maior onda do meu lado biólogo por ter passado tanto tempo se preocupando com isso. Ninguém liga pra tartaruga, mico-leão, nem pra abelha. Meu lado aspirante a marketeiro vê você como alguém tão superficial que é capaz de dizer maravilhas sobre a natureza, os animais, a biodiversidade e o caramba, e ao mesmo tempo escolher os produtos que compra apenas pelo preço e pela imagem que eles têm, sem dar a mínima pra coisas como custo ambiental e gestão de dejetos.

Por outro lado, meu lado biólogo vê você como parte da maior riqueza do mundo, pois você pertence à única espécie capaz de analisar a situação do planeta e de todos seus habitantes, de planejar e de executar ações que possam melhorar a situação de todos e garantir o futuro. Aliás, é por isso que meu lado biólogo quis ser biólogo, ele acha que quando a gente vive pra participar da construção do futuro, não precisa ter dinheiro.

Anúncios

9 comentários

  1. A maior parte dos investimentos em pesquisa científica vem do dinheiro público e de doações. É por isso que creio que todos têm o direito de saber um pouco mais sobre o que fazemos, e o jornalismo, que deveria cumprir esse papel, muitas vezes dá mancada (leia mais aqui: http://letranslator.wordpress.com/2013/09/15/segundo-uma-pesquisa-ai/ ). Todos têm o direito de dar palpite também, este texto tenta fazer com que o seu seja um pouco mais sólido.

  2. Umas das industrias que mais faturam chama-se Farmacêuticas. Essa industria não para de inventar doenças e remédios. Precisamos voltar pras cavernas e parar de “evoluir”, mas se querem continuar avançando com seus remédios testem em vocês mesmo oras, esse é o melhor teste. Existem muitas pessoas que fariam esses teste por dinheiro e o melhor fazem conscientes, já os animais são sequestrados.

    Não acredito que o ser humano seja superior aos animais, mas costumamos achar pois temos um cérebro com problemas e vamos destruir tudo aos poucos, isso é fato.

    1. Guilherme M.Ogawa · · Resposta

      Prezado Rick, talvez você não saiba que muitos destes testes envolve o sacrifício dos animais para que sejam feitas análises dos resultados. Não estamos falando de passar batons ou shampoo em Beagles e sim sobre resposta celular e de tecidos a novas drogas etc. E a maior parte das pesquisas sobre doenças é realizada por institutos de pesquisa públicos. Doenças como malária, leishmaniose, chagas e dengue afetam populações de países pobres, ou seja, povo que não é alvo das grandes indústrias farmacêuticas.

  3. Ricardo · · Resposta

    Eu acho que essa discussão é muito longa e muito maior do que o meu entendimento agora. Sinceramente não tenho uma posição completamente formada sobre o assunto. Mas uma coisa é verdade, se para fazer qualquer tipo de remédio é necessário a utilização desses animais, então você deixaria de tomar um remédio que salvaria a sua vida por conta disso? 99,99% das pessoas tomariam o remédio sem pensar duas vezes, até porque tomam até quando tem uma dorzinha de cabeça. Por outro lado, acho importante sim tentar encontrar formas de não fazer os animais sofrerem, ou que sofram o mínimo possível.

    1. Alda Silva · · Resposta

      Acredito que este seja o ponto central. Experimentação animal precisa existir e sempre precisará. Não há como mudar isso. E a experimentação em humanos vem crescendo também a cada dia. A questão é a ética na condução dos experimentos e sua real necessidade. Aqui a coisa entorna, pois muita, mas muita gente mesmo, que trabalha com experimentação animal não possui respeito algum pela vida das cobaias. Sou cientista na Universidade de São Paulo e a gama de atrocidades que já vi é inenarrável. Consciência, treinamento e supervisão são, na minha opinião, os caminhos para tornar a experimentação animal mais “humana” e menos chocante.

  4. Acho bom que a discussão sobre o uso de animais em laboratório esteja rolando no Brasil, podem usar este espaço aqui pra discutir também. Mas queria salientar que essa brutalidade é apenas um sintoma do estilo de vida que buscamos. Ao meu ver, essa é “a verdadeira questão”. (reponho aqui em outras palavras porque vi que não ficou muito claro no texto)

  5. Anônimo · · Resposta

    Você que é contra a pesquisa com animais que nãos seja seres huamos; recuse-se a receber vacinas e outros derivados de pesquisas que salvaram a vida de vocês e de seus parentes. Seja feliz e morra na ignorância implnatada por uma sociedade boçal. EHHHH!! Viva copa…………………..?!

  6. Partilho aqui o link para um post sobre este caso, num blog em português (do outro lado do Atlântico) de autores com uma ligação profissional ao mundo animal.

    Animalogos

  7. […] discutidas. Até agora, tenho usado este blog pra escrever sobre coisas que não entendo (exceto o texto sobre os beagles motivado pela urgência). A novidade aqui, é que pretendo escrever sobre coisas que conheço um […]

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: