Quem disse que você está nu

Pois é, a época de sair de casa sem blusa acabou, pelo menos pra quem tá do lado de cá do paralelo 45 Norte. Só daqui uns seis meses é que vamos voltar a ver pele de gente. Este post é pra marcar a data. Aproveite a trilha sonora:

“Tem pouca diferença”, de Jackson do Pandeiro

A humanidade tem alguns problemas cuja origem ninguém conhece direito. A aversão à nudez é um deles. Como fui educado no Cristianismo, a Bíblia foi minha primeira opção na busca de um pouco de luz. O livro sagrado começa dizendo que o homem e a mulher foram criados nus:

O homem e a mulher estavam nus, e não se envergonhavam. (Gênesis 2, 25)

Mas um tempo depois, as coisas mudaram. Deus, apesar de tudo ver, um dia perdeu Adão de vista e saiu perguntando por ele. Adão gritou lá de trás de uma moita avisando que estava escondido porque estava nu. Deus respondeu com uma pergunta:

  “Quem te revelou que estavas nu?”

Essa pergunta passa batido em todas as aulas de catecismo do mundo. O que passa batido é que Deus, Ele que vê tudo, ouve tudo, sabe tudo, não sabe quem convenceu Adão a condenar a nudez. Essa pergunta também deixa claro que não foi o Todo-Poderoso que nos ensinou a ter vergonha de ver e mostrar certas partes do corpo projetado e produzido por Ele mesmo, apesar do que você pode pensar ao ver algumas placas de sinalização:

vaticandress

A vergonha de Adão é o primeiro sintoma de uma grande mudança. Ele rompeu a obediência total ao Criador e agora inventa seus próprios limites, suas próprias leis, sua própria noção de decência. De fato, na seqüência, Deus não espera que Adão responda quem foi que lhe ensinou o que era nudez e continua com mais uma pergunta:

“Terias tu porventura comido do fruto da árvore que eu te havia proibido de comer?” (Gênesis 3, 11)

Não consegui “descobrir” o autor desta foto (tirada em São Paulo, Brasil), agradeço quem puder me passar a referência pra eu poder dar o crédito.

O fruto em questão tem um nome comprido: “fruto da sabedoria do bem e do mal” (atenção: não é “fruto da sabedoria”! Nenhuma parte da Bíblia diz que a gente não deve buscar sabedoria, mas isso deve ser abordado em outro post). Desde o princípio, Deus tinha avisado pra ficar longe da árvore que dá esses frutos que fazem a gente conhecer o bem e o mal. “Sem dúvida morrerás” — Ele disse (Gênesis 2, 17). Mas Ele bem que podia ter plantado essa árvore em outro lugar, ou fazer com que o aspecto dos frutos não fosse tão atraente… só que não, a árvore está ali no jardim, além do mais tem uma serpente que vem provocar, e Adão não pode parecer um bunda-mole na frente da Eva, o nascimento da humanidade depende disso. Pois os dois tiveram tanta vontade de conhecer o bem e o mal que aceitaram a “morte“, ou seja, o final daquela vidinha boa de casalzinho jovem se descobrindo, sem impostos pra pagar, sem vizinhos e sem sogra. Foram expulsos do paraíso porque queriam liberdade.

De acordo com esse texto, condenamos a nudez porque julgamos o que é bom e o que é ruim, e decidimos que a nudez é ruim e pronto.  (concordo com você, querido(a) leitor(a) frustrado(a), até aqui a razão continua desconhecida, esse começo foi só pra separar os crentes, os pastores e a liturgia.)

Nossa vergonha é cultural.

“Por ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tinham nenhuma vergonha” — Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal depois da descoberta do Brasil

Veja o que ainda acontece num cantinho da Grécia, por exemplo:

Carnaval de Tyrnavos (Grécia) – clique para ler (em Inglês) e ver mais

E em Kawasaki (Japão):

Kanamara Matsuri em Kawasaki (Japão) – clique para ler e ver mais

Esses são os chamados rituais fálicos. Esses rituais datam de muito antes do Império Romano, numa época em que os gregos lutavam nus (como nas primeiras olimpíadas). Eles celebram o começo da Primavera, época mais propícia para celebrar e pedir fertilidade, tanto na cama quanto no campo. O festival de Tyrnavos já foi proibido e hoje anda meio broxa, mas a população local luta pra manter a ereção tradição.

O Império Romano não foi construído na base da conversa. Seu exército era muito bem organizado e um dos poucos (talvez o único?) a usar uniforme na época. Cada batalha romana era um confronto do time “com camisa” contra o “sem camisa”, e, claro, o time “com camisa” também tinha armas melhores e era bem treinado. Nessa época, estar nu ou mal vestido era coisa de escravo, de povo dominado, nada mais condenável. Essa cultura foi imposta aos povos que iam sendo anexados ao império. O Império  Romano evoluiu para a Igreja Católica com Constantino, que foi primeiro imperador, depois papa e acabou santo. Se tem preguiça de ler livros de História, assista o filme ‘Ágora’, tem a Rachel Weisz. E a Igreja Católica continuou espalhando a vergonha pelo mundo, vestiu até algumas tribos de índios brasileiros, quase todas as que sobraram do genocídio.

Mas já faz tanto tempo, que todo mundo esqueceu. As gerações de hoje já não pensam em romanos e escravos quando obrigam seus filhos a andarem vestidos, o paradigma já está estabelecido. Aliás, como não conhecem a razão de sua obsessão, acabam forçando a mão e aumentando sua importância, e isso gera situações ridículas:

(Este foi o início da carreira triunfal de Geyse Arruda, que depois disso virou “modelo e atriz”, até ganhou “prêmio de melhor polêmica” (entenda a ironia aqui), mas antes de desprezá-la, tente descobrir o que estão fazendo seus ex-colegas do curso de turismo da Uniban de São Bernardo.) 

  • Casos de lugares tão, mas tão tranqüilos, que a polícia não tem o que fazer e vai à caça de mamilos expostos:
  1. New Jersey (EUA), 2008;
  2. Balneário Camboriú (Brasil), 2011;
  3. Balneário Camboriú (Brasil), 2012;
  4. Fort Pierce (EUA), 2013;
  5. New York (EUA), 2013…

… e outros que não viraram notícia na internet, ou que eu não consegui achar. Nem vou citar casos da Tunísia ou outros países de tradição muçulmana por falta de tempo e espaço aqui.

  • Também tem a velha mania da tarja preta, que normalmente cobre mais do que os biquínis;
  • E a censura do nu para crianças, como se elas se ofendessem com a nudez. Experimente ficar nu(a) diante de um bebê de um ano pra ver se ele se ofende. A nudez só é capaz de chocar uma criança quando esta já foi educada pra se chocar com ela. Bloquear a nudez para menores de 18 anos só serve pra reforçar o paradigma. Facilita o trabalho dos pais.

E pra você que leu o texto até aqui achando que o assunto não tem tanta importância, saiba que existe um tipo de epilepsia em que a pessoa perde o controle e tira a roupa. Em geral, a epilepsia é vista como uma perda de controle total, com movimentos convulsivos que parecem não ter objetivo algum, mas neste caso em especial, os movimentos são suficientemente coordenados para que a pessoa tire a própria roupa. Não é fingimento, as pessoas estão realmente em estado epiléptico, não dá pra enganar o ECG (eletroencefalograma). Se ficou curioso(a), leia mais aqui (em Inglês). Até agora, me parece que ninguém conseguiu mostrar a ligação entre educação puritana e esse tipo particular de epilepsia, isso é pura desconfiança minha. Mas é uma condição rara (felizmente), o que dificulta os trabalhos estatísticos.

A censura da nudez tem uma utilidade oculta (além de alimentar o mercado de roupas): a de nos fazer esquecer nossa condição de seres vivos para que sonhemos em parecer com as pessoas com cara de borracha que vemos na TV e nas revistas, numa imposição constante de modelos de sucesso, e sobretudo da noção de decência.

Isso, talvez, pra você não perceber que indecentes, mesmo, são as pessoas passando fome, as mulheres sendo constantemente vítimas de repressão e estupros, as pessoas tendo que trabalhar cada vez mais e viver cada vez pior. Concorda?

Indecente
É você ter que ficar
Despido de cultura
Daí não tem jeito
Quando a coisa fica dura
Sem roupa, sem saúde
Sem casa, tudo é tão imoral
A barriga pelada
É que é a vergonha nacional
Vai!

(“Pelado”, Ultrage a Rigor)

“A Liberdade Guiando o Povo” – óleo sobre tela – Eugène Delacroix (1830)

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um comentário

  1. […] a criança a cenas degradantes de sexo explícito, não estou falando de pornografia, apenas de nudez. (E o fato de eu me sentir obrigado a explicar a diferença mostra o quanto sou tarado: associo a […]

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