Distúrbios psiquiátricos coletivos 3… a amnésia

“Odeio criança!” — ela disse. Juro que disse. Ela tinha acabado de entrar no ônibus cheio e topou com um carrinho de bebê que ainda não tinha sido colocado no lugar reservado a ele. Ela devia ter quase dezoito anos. Mas acho que não era maldade, não. Ela esqueceu, só isso. Não sei se os pais dela costumavam circular em ônibus com um carrinho de bebê, isso é o de menos. Ela, aos seis meses, espero eu, deu muito escândalo dentro e fora de casa, seja por fome, cansaço, saco cheio, brinquedo caído no chão, fralda suja, ou qualquer outro motivo que um bebê saudável de seis meses pode ter pra chorar bem forte. Claro, ninguém é capaz de contar como era sua própria vida aos seis meses de idade, o cérebro não tem como guardar a lembrança de forma consciente porque não sabe como. Mas todos sabemos que, um dia, tivemos seis meses de idade. E, mesmo isso, somos capazes de esquecer.

Também tem várias histórias no sentido inverso, ou seja, pessoas que deixam os pais idosos em condições imundas porque é “o que deu pra pagar” – leia-se “o que deu pra pagar e ainda poder trocar de carro todo ano”. Só pode ser esquecimento. Esquecimento de fatos relacionados a pessoas específicas, mas ainda assim um tipo de amnésia. Um tipo de amnésia em que a gente esquece o futuro, também.

advertencia wikipedia nao e farmacia

Leconnector é farmácia, sim! Mas precisamos encontrar as capsulazinhas vermelhas juntos!

Até aí você pode dizer “mas isso é mesquinharia humana, é natural”. Não, não é. Nem todas as sociedades desprezam a população não-trabalhadora.

Tem mais:

“Maçã sem coração, maçã podre”

Já faz um tempinho, mas ainda me lembro, de quando prometeram que era melhor a gente mudar pra cidade grande e achar uma fábrica pra trabalhar, porque iam dar um salário pra gente. Dinheiro! A gente ia poder comprar tudo o que quisesse, bastava trabalhar bastante. Lembra disso, ou não? Foi lá por 1800. Era o trato: o dono da fábrica enriquecia graças ao nosso trabalho, e a gente também enriquecia por ter participado da aventura. Mas faz tanto tempo, que a gente esqueceu. O dono da fábrica, não. Ele percebeu que a idéia fez tanto sucesso, tinha tanta gente querendo participar da brincadeira, que ele passou a pagar o mínimo possível. “Não quer trabalhar pra mim? Beleza, tem quem queira. Tchau.” E daí quem já tinha mudado pra cidade grande já não tinha pra onde correr, teve que se sujeitar às condições do dono da fábrica. E a gente foi se acostumando. Esquecendo e se acostumando. Hoje a gente acha caro pagar R$ 678,00 pra alguém passar o dia inteiro cuidando da nossa casa. Também não é maldade, a gente só esqueceu. Esqueceu que essa pessoa que trabalha o dia inteiro na nossa casa também precisa comprar comida, pagar conta de luz, aluguel… calma, calma, não vou exagerar ao ponto de dizer que ela também deveria poder pagar escola, academia, condomínio, TV a cabo e ainda ir à churrascaria de vez em quando, porque aí iam pensar que eu e a empregada pertencemos à mesma espécie.

Sim, há vários casos de amnésia coletiva. Eles são todos mais ou menos relacionados com a esquizofrenia coletiva, pois têm a mesma causa. Alguns são bem documentados, como o caso GayLib na França. GayLib é um dos grupos que lutam pelos direitos dos homossexuais na França. Esse grupo apoiou a eleição do presidente Nicolas Sarkozy (UMP) em 2007, mas ficou desapontado porque em 5 anos de mandato nunca viu nenhuma de suas reivindicações ser posta seriamente em pauta. Em 2012, parece que essas pessoas perceberam o que é uma ideologia de direita e declararam que não apoiarão a nova campanha de Sarkozy. Não, a maior amnésia ainda não é essa, pois saiba que existe um grupo de argelinos que apóia o Front National, partido francês de extrema direita. Deus queira que eles nunca tenham a oportunidade de se decepcionarem como o GayLib.

O Front National, por si só, também é fruto de uma grande amnésia coletiva. A cada eleição, mais e mais pessoas esquecem o passado recente da Europa e se deixam seduzir pelo discurso “nacional-socialista” da extrema direita. Se quiser ver uma comparação com o discurso de Adolf Hitler, tente esta tradução automática aqui. Ou veja o artigo original em Francês.
Não, a memória curta não é privilégio do povo brasileiro. Qualquer pessoa que se vê forçada a se adaptar ao imediatismo é uma vítima em potencial da amnésia coletiva. A amnésia aparece quando alguém nos convence de que tudo que fazemos tem que ser imediatamente recompensado, ou não vale a pena fazer. Ela é reforçada quando esquecemos as pessoas que realmente fazem algo pela humanidade porque preferimos dar atenção a quem nos dá algum tipo de prazer imediato.

“Olho por olho e o mundo acabará cego” – Mahatma Gandhi lutou pacificamente contra a desigualdade social na Índia

Grazi Massafera participou do Big Brother Brasil, posou nua pra Playboy e até já raspou a sobrancelha

Quem fala dois ou mais idiomas conhece um tipo de amnésia bem especial, essa que faz a gente esquecer até o próprio endereço quando está pensando em outra língua. Por exemplo, conversando com um francês, tento contar um filme que vi no Brasil quando eu era mais jovem. Ou um jogo de futebol. Não funciona, os nomes dos personagens e dos jogadores desaparece completamente. O único jeito de lembrá-los é respirar fundo, tentar pensar em Português, lembrar da história no idioma original, e aí, sim, tentar traduzir pra contar. É necessário abrir um portal entre dois universos para que as lembranças possam vir pro lado de cá, e isso requer um esforço tremendo. Pois é que a memória funciona assim mesmo, por associação. Quando você pára pra conversar com o seu sogro, a conversa começa no preço do pãozinho e termina no jogo da Ferroviária, na época do holofote a vela. Uma coisa vai puxando a outra.

E pra gravar a memória, a mesma coisa, só que as emoções também entram no jogo. E às vezes passamos por uma emoção muito forte sem entender bem a situação de forma racional, o que gera um trauma psicológico. Os criadores de mídia sabem disso e se servem muito bem das nossas emoções para controlar o que esquecemos ou lembramos. Mais detalhes na Parte 2 do Curso de Jornalismo para Editores.

Hollywood pode apagar memórias (do filme Men in Black)

Mas o melhor mesmo pra gente se lembrar das coisas, é usar lembretes. O melhor seria fazer igual ao cara do filme Amnésia, que tatuava sua própria história no corpo. Como tenho letra ruim, proponho uma pequena lista de lembretes, onde cada frase é lida duas vezes antes de se sair de casa:

  • Na última vez em que os militares tomaram o poder no Brasil, em 1964, o país tinha escolas públicas de qualidade. Quando saíram, em 1985, não.
  • É verdade que a Bíblia contém uma passagem contra as relações homossexuais masculinas (Levítico 18:22), mas ela também contém três contra as taxas de juros (Êxodo 22:25; Levítico 25:36; Deuteronômio 23:19-20).
  • A humanidade só consome metade dos alimentos que produz.
  • os cinco arrependimentos de pacientes terminais:
    • Eu gostaria de ter tido coragem de viver uma vida fiel a mim mesmo, e não a vida que os outros esperavam de mim
    •  Eu gostaria de não ter trabalhado tanto
    •  Eu gostaria de ter tido coragem de expressar meus sentimentos
    •  Eu gostaria de ter mantido contato com meus amigos
    •  Eu gostaria de ter me deixado ser mais feliz

A lista não precisa ser longa, basta ser bastante diversificada, cada frase vai puxar um grupo de memórias por associação. Escreva apenas o que você achar importante e que não é lembrado pela mídia todos os dias. Além do mais, como não tenho boa memória, prefiro não arriscar uma lista muito longa, mas se você tem idéias de lembretes, deixe um comentário! É provável que muito mais coisas importantes tenham fugido à minha memória.

Semana que vem tem mais, vê se não esquece, hein!

A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez.

Friedrich Nietzsche

 

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3 Comentários

  1. Apelo: os anúncios que você eventualmente encontra neste blog financiam Youtube e WordPress, dois serviços que certamente merecem reconhecimento. Por opção minha, este blog não recebe nenhuma ajuda financeira (eu também não ganho nada escrevendo isto) e, por conseqüência, não é divulgado em outras páginas. Se você acha que um texto merece ser lido por mais pessoas, compartilhe-o em sua rede social favorita, publique em seu site ou envie o endereço da página por e-mail.

  2. […] já faz tanto tempo, que todo mundo esqueceu. As gerações de hoje já não pensam em romanos e escravos quando obrigam seus filhos a andarem […]

  3. […] a pessoa apenas desiste de controlar a ideologia e passa ser constantemente controlada por ela. Deixa de prestar atenção às histórias e à própria História: passa a ver crianças, idosos, inválidos, excluídos e presidiários como pesos que a sociedade […]

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