Distúrbios psiquiátricos coletivos 2 – O complexo de inferioridade

Como Leconnector tem muitos leitores em Portugal, talvez seja melhor começar explicando o significado de uma expressão que se usa bastante no Brasil: ele/ela se acha.

Se achar – assim mesmo, com pronome antes do verbo – é um verbo conjugado na terceira pessoa. Não tem nada a ver com encontrar. Se achar vem da abreviação de expressões como:

Essa secretária nova se acha a rainha da cocada preta.

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O que quer dizer que a moça é convencida, arrogante, ou seja, tem auto-estima demais. Rainha da cocada preta pode ser substituída por a última bolacha do pacote, a última batata do vinagrete, o galã da novela das oito e tudo o mais que a imaginação permitir, ou simplesmente ser removida:

Essa secretária nova se acha.

E se achar também pode ser conjugado no gerúndio (como vocês já estão sabendo em Portugal, brasileiro adora um gerúndio):

O autor do Leconnector está se achando agora que tem leitores em Portugal.

Quando usada no gerúndio, a expressão muda de sentido. Ao invés de descrever um traço de personalidade, passa a designar um estado de espírito, tanto é que depois de está se achando a razão vem logo em seguida. Significa que a pessoa está orgulhosa, contente de si mesma. A pessoa que está se achando, na maior parte do tempo, não se acha. É uma situação passageira.

Bom, explicação feita, podemos começar o post.

Lilian é uma bela jovem que acaba de completar 19 anos. Ela vive em São Paulo e quer cursar Fisioterapia. Trabalhar com pessoas a atrai e ajudá-las a recuperar a saúde lhe parece algo nobre, valeria a pena dedicar sua vida a isso. Lilian sempre foi uma estudante muito dedicada e poderia ter tentado ingressar em uma universidade pública, o que lhe daria oportunidades mais diversificadas para o futuro. Mas ela nem considera essa possibilidade. Lilian nasceu e cresceu em um bairro pobre da cidade.

Jonathan tem 28 anos e também nasceu e cresceu em um bairro pobre. O problema de Jonathan é outro: um conhecido acaba de convidá-lo a ir trabalhar em sua empresa de informática na Inglaterra. Jonathan é um programador muito competente, só não tem um currículo brilhante. Jonathan recusa o convite porque não fala Inglês. E tem certeza que nunca aprenderia.

Quem você acha que é?

Situações assim acontecem todos os dias, com muita gente, em qualquer país do mundo. É certo que cada um tem uma opinião sobre si mesmo, e que ela nunca é a mesma das outras pessoas. Mas existe um problema quando tanta gente desiste de buscar uma vida melhor porque se vê inferior às outras. E existe outro problema quando essas mesmas pessoas se transformam em uma polícia da humildade, saindo pelas ruas identificando gente que se acha e condenando-as à difamação. Sim, esses são dois aspectos de um mesmo distúrbio psiquiátrico (a página da Wikipédia em Inglês tem referências).

Infelizmente não tenho bases estatísticas sérias sobre isso, e se você acha que estou muito fora da realidade, por favor deixe seu comentário, mas algumas questões me perturbam:

1.  Por que o complexo de inferioridade atinge mais empregados do que patrões?

Assim como muita gente no Brasil, desde pequeno tentaram me condicionar a ser obediente. Fosse pra poder ter direito à sobremesa ou ao presente de Natal, a gente tinha que ser obediente. Só agora depois de adulto é que percebi que há outras formas de se educar uma criança. Na França, por exemplo, o objetivo imposto às crianças é ser sage (= sábio, ajuizado). O mais dramático nessa diferença é que alguém obediente não pensa com a própria cabeça, apenas segue ordens e é julgado por seus superiores. Alguém ajuizado, ao contrário, está sempre pensando e tenta tomar a melhor decisão a cada minuto, pois é ele mesmo quem julga.

A gente apanha quando criança, depois cresce e se orgulha de ter apanhado. Clique para ver que há alternativas.

Coincidência ou não, enquanto quase todos os brasileiros que migraram para a França que eu conheço são empregados com salários mais baixos do que a média francesa, a maioria dos franceses que migra para o Brasil vai como expatriado (e recebe um bom complemento salarial por isso) ou abre o próprio negócio – aceito sugestões de links que confirmem ou mesmo que desmintam essa constatação.

Se eu não tivesse tanto medo de acharem que sou comunista, diria que essa diferença de educação é proposital e recomendaria a você o capítulo VIII de um link de esquerda. Mas não o farei. Só direi que censurar a iniciativa privada vai contra os interesses do Liberalismo Econômico.

2. Por que a polícia da humildade não age da mesma forma contra todo mundo?

Revista Caras: “Beyoncé quer peixe e churros em SP”

No tribunal express da polícia da humildade, essa que cria as próprias leis, julga e executa em questão de minutos, sem dar direito a recurso, algumas pessoas têm direito de se achar. Elas têm o direito de mostrar o corpo nu, dizer o que pensam, gastar seu dinheiro como querem e até palitar os dentes de boca aberta, pois são celebridades reconhecidas. Outras pessoas, não.  A polícia da humildade parece vê-las como semelhantes demais, “pessoas normais” que devem ser condenadas desde que seu comportamento demonstre um desejo de se destacar. Essa é a prova da origem da obsessão pela “humildade”.

Talvez “você se acha” queira dizer, na verdade, “tenho inveja de você, pois você não tem tanto complexo de inferioridade quanto eu”

3. Por que há tantos agentes femininos na polícia da humildade?

Arrisco ainda uma outra estatística de boteco: as mulheres são mais freqüentemente ativas no policiamento da humildade alheia.

Essas meninas de hoje que só pensam no desfrute!

Não sei se você compartilha as mesmas impressões, mas me parece que a maioria dos homens não liga muito para a auto-imagem dos outros. E arrisco também uma explicação de psicólogo de ponto de ônibus: isso é porque as mulheres são criadas de forma mais repressiva. Aguardo comentários, sugestões de leitura e até ofensas.

A cura

Ao contrário da esquizofrenia coletiva, a cura do complexo de inferioridade coletivo parece ser relativamente fácil. A partir do momento que a pessoa percebe que sofre desse mal, já começa a se curar. Ela começa a se policiar ao invés de policiar os outros. Ela percebe que a humildade é uma virtude e por isso não deve ser buscada nos outros, mas em si mesma. Ela percebe como é ridículo admirar pessoas que fazem coisas extraordinárias e ao mesmo tempo impedir-se de tentar algo extraordinário também. Daí é só questão de tempo para a pessoa se libertar. Há casos em remissão, mesmo em escala nacional.

Mais algumas considerações

Existe uma grande confusão de palavras mal empregadas neste tema (leia sobre a origem da palavra humildade para entender melhor). Humildade é freqüentemente confundida com modéstia. As duas coisas são freqüentemente usadas como desculpa para a inação, de si próprio ou de outrem, e é sobretudo isso que me incomoda. Outra coisa que me incomoda é quando as pessoas são julgadas pelo que aparentam – sua humildade inclusive – e não pelo que fazem, e isso deverá ser abordado mais vezes neste blog.

Próximo distúrbio psiquiátrico coletivo: … esqueci!

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um comentário

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