Distúrbios psiquiátricos coletivos 1: A Esquizofrenia

Finalmente percebi que o problema não é com os outros. É comigo. Deve ser algo genético, ou então me deram drogas quando eu era pequeno. Talvez eu tenha sofrido demais, ou então não sofri o suficiente… Mas sei que tem algo de anormal.

mandala

Diagnóstico

Lembro-me de assistir TV e o jornalista falar de uns duzentos e tantos mortos no Egito, e isso não me chocar. Ao contrário, ainda achei que “esses árabes, libaneses, palestinos e judeus” não aprendem nunca, o jeito é deixa-los se matarem até que não reste mais ninguém. Outro dia, num filme americano, as pessoas morriam às centenas. O filme  entrou na categoria “aventura”. Em outro filme, inglês, a cada vez que um vilão morria, alguém ligava pra família do vilão pra explicar a morte. Este filme foi classificado como “comédia”.
Mas um dia alguém que eu gostava muito morreu, e isso me tocou. E então por um breve momento pensei nas duzentas e tantas famílias no Egito, em duzentos e tantos pais e mães e filhos e amigos próximos… e naquele breve momento eu nem parecia o mesmo tirano sanguinário que não se incomodaria com o extermínio de toda a população do Oriente Médio.

Mas passou, não se preocupem tanto comigo. Igual a quando alguém famoso morreu e a TV ficou falando durante meses, e eu sempre ouvindo…  é assim, a vida tem pesos diferentes pra mim. Não é a quantidade que conta, nem a distância física, e sim a distância psicológica.

A TV também mostrou uma vez a história de um menino que foi buscar uma bola de futebol dentro da casa de um vizinho que tinha saído de férias. O vizinho tinha feito uma armadilha com uma espingarda que matou o menino quando este entrou na casa. “A culpa foi do menino” – pensei. Quem mandou invadir propriedade alheia? Esta coisa continua fazendo ping-pong na minha cabeça, porque parece que a Constituição, a UNESCO e até algumas pessoas sugerem que o direito à propriedade privada vem depois do direito à vida. Fico confuso porque nas séries americanas é normal o invasor ser recebido à bala.

Também me lembro quando começaram o Fome Zero, um programa social que propunha acabar com a fome de quarenta e tantos milhões de pessoas. “Você acha que existem quarenta milhões de famintos no Brasil?” – alguém me perguntou na hora do café. “Olhe ao seu redor! Você acha mesmo que há quarenta milhões de famintos aqui?” – bom, é verdade que estávamos na Vila Clementino, bairro da classe de média de São Paulo onde, às três da tarde, não devem existir muitos famintos. Quem ainda não almoçou deve estar terminando de almoçar, e até os sem-abrigo fazem uma boquinha nas lixeiras próximas ao shopping. Mas aí um casal de amigos me contou que, durante uma viagem de carro, bem longe da Vila Clementino, eles deram um prato congelado a um grupo de pessoas que pedia comida na beira da estrada e viram pelo retrovisor aquelas pessoas atacando o novo “sorvete” com muito prazer.

Brasil Escola

E mesmo eu, que não tenho o menor problema em comer pizza fria no dia seguinte, fiquei impressionado com tamanha ousadia. Imaginem só, atacar uma bela lasanha à bolonhesa congelada, assim, sob o sol, na beira da estrada… que modos.

De qualquer forma essas situações me fizeram pensar em duas coisas: uma, que existe uma distância considerável entre a realidade na minha cabeça e no resto do mundo. Outra, que eu não sou o único afetado por essa condição estranha que faz a gente julgar e portanto tomar decisões e portanto votar e portanto dar palpite e portanto convencer algumas pessoas de coisas que estão completamente fora da realidade pro resto do mundo. Quando a realidade de um indivíduo não corresponde à realidade das outras pessoas, pode crer, é esquizofrenia:

“Gisele é Hope” – foto de Donna Kether

Vivendo com a esquizofrenia

Uma mente brilhante

Se você também respondeu check à maioria dos critérios acima, estamos no mesmo barco. No filme sobre a vida de John Nash há umas dicas sobre como manter-se longe do sanatório. O mais importante parece ser identificar as alucinações. Uma dica do filme é não dar atenção às pessoas que não envelhecem.

Depois que comecei a seguir essa dica, meus sintomas diminuíram. Outro dia alguém postou no Facebook “pena que o ladrão não morreu” e eu não concordei! Diga a você mesmo: “só esta semana, não vou assistir o Fantástico”.

E a cura?

Antigamente “curava-se” a esquizofrenia com um procedimento cirúrgico chamado lobotomia. Nessa cirurgia, a comunicação entre partes distintas do cérebro é rompida. Para curar a esquizofrenia coletiva, poderíamos tentar o contrário: mais comunicação. Podíamos trocar  idéias pra tentar separar as alucinações da realidade. Tem gente que escreve blogs, gente que escreve no Facebook…  só é preciso ler com honestidade. Cada vez que tentamos ler algo, as alucinações nos impõem um julgamento. Tentam o tempo todo bloquear a entrada de informações que  podem nos fazer ver a realidade. E fazem isso inserindo um monte de informações inúteis. A verdade não está escondida de ninguém, ela está bem exposta, pra todo mundo ver, só que misturada num monte de merda. Só estaremos curados quando conseguirmos limpá-la. Se você tem outras sugestões de cura, não deixe de comentar este post!

Próximo distúrbio psiquiátrico coletivo: O complexo de inferioridade.

E ATENÇÃO ALUNOS DO CURSO DE JORNALISMO PARA EDITORES: as aulas voltam semana que vem!

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10 comentários

  1. Não sou muito de comentar post’s ( na maioria das vezes por eu não saber expressar corretamente o que eu acho de fato sobre um determinado assunto ), mas hoje vou abrir uma exceção, até porque gosto do assunto e tenho alguma segurança para falar do mesmo! Antes de mais, parabéns pelo post. Sempre impecável. Sobre a esquizofrenia, conheço algumas pessoas que sofrem desse mal. E por ter amigos assim, eu sempre procurei estudar o assunto até mesmo para entendê-los melhor. Já digo logo, eles viajam mesmo na maionese! Mas claro, há vários tipos de esquizofrenia, entre o mais comum é o “Paranóide”. Embora que, algum tempo atrás, eu cheguei a pensar que eu sofria desse mal. Os sintomas são, as desconfianças, ser muito reservado (a), tímido (a) e em algumas vezes, não é em todos os casos, ser agressivo, verbalmente ou fisicamente. (Um amigo meu em particular tinha e tem ainda, o hábito de achar que existe alguém atrás dele, a vigiá-lo. Em outras situações, ele se sentia culpado até quando morria uma planta, uma formiga!) Mas depois descobri que, no meu caso, era apenas um caso à parte da esquizofrenia. Porém, com esses alguns amigos meus, estive, na altura, a procura de formas a tentar trazê-los a “realidade”. Embora tenha sido difícil, doloroso, não foi impossível. Muita conversa, muito diálogo, muita atenção, e muita, mas muita paciência, normalmente, ajuda essas pessoas que sofrem desse mal. Claro, uma ajuda médica e psicológica não deve deixar de ser procurado.

  2. Oi Lidy, o fato de você achar que não se expressa bem será abordado no próximo post da série (Complexo de Inferioridade), rsss… comente sempre! Tive um professor que dizia que somos todos um pouco esquizofrênicos, um pouco autistas, um pouco bipolares, e que o tratamento é indicado apenas quando o que fazemos ultrapassa certos limites. Você tem razão, em alguns casos o esquizofrênico pode ser ajudado com muita conversa. Em outros, no entanto, é necessário o uso de drogas terapêuticas. O mais importante é a pessoa perceber que precisa de ajuda. Beijos!

  3. Sonia Dezute · · Resposta

    Parabéns pelo enfrentamento daquilo que muitos acham normal…

  4. Perfeito. 🙂

  5. Anônimo · · Resposta

    no mínimo original!

  6. […] aumentar a produção mundial de esperma. Ela também pode e deve ser usada para manter o leitor na patinação mental, evitar que sua mente evolua e, ao mesmo tempo, fazê-lo sentir-se inteligente. É o caso de […]

  7. […] não tenho bases estatísticas sérias sobre isso, e se você acha que estou muito fora da realidade, por favor deixe seu comentário, mas algumas questões me […]

  8. […] há vários casos de amnésia coletiva. Eles são todos mais ou menos relacionados com a esquizofrenia coletiva, pois têm a mesma causa. Alguns são bem documentados, como o caso GayLib na França. GayLib é um […]

  9. […] harmonia. Aos poucos nos tornamos fechados, egoístas, burros, (alguns até dizem que nos tornamos esquizofrênicos); mas a Internet nos dizem que nós estamos conectados uns com os outros e a TV diz que nós […]

  10. […] se você ainda lembra da recomendação de não acreditar nas pessoas que não envelhecem, dá uma olhada nisso […]

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