Esquerda ou direita, e continuamos sem andar pra frente

A grande mentira do século XX foi essa de que não há recursos suficientes para que todos os seres humanos vivam decentemente. Diziam que, no ano 2000, já não haveria comida suficiente. Estamos em 2013 e, se você ainda não sabe, produzimos muito mais comida do que precisamos e, apesar do crescimento econômico constante, mantemos um número sempre estável de uns 900 milhões de famintos. Há tentativas de diminuição de desperdício, mas a maioria delas não visa melhorar a distribuição de alimentos entre as pessoas.

fome vs PIB

Boa parte da comida que não vai para o lixo vai para bocas que não precisam, aumentado a obesidade no mundo. Remédios do tipo Xenical “combatem” a obesidade impedindo a absorção do alimento, e não fazendo a pessoas comerem menos. Quer dizer que preferimos fazer o excesso de comida virar cocô a alimentar um bilhão de famintos. Esses remédios são cada vez mais vendidos.

A alimentação é apenas um exemplo. Constatações revoltantes também podem ser feitas com as fontes de energia e de água potável, mas o objetivo deste post não é simplesmente criar indignação.

Já faz uns meses, caí neste post escrito por alguém que nem conheço. Li e gostei, mas na época subestimei sua importância. Hoje de repente o tico e o teco resolveram se comunicar. A ficha caiu. Esse e tantos outros relatos provam que o importante não é o quanto a gente ganha, o que consegue comprar, nem a quantidade de invejosos que geramos durante a vida. O prazer em viver não está nesse sentimento de vingança que algumas pessoas parecem interpretar como felicidade, quando finalmente conseguem comprar um carro de luxo ou um par de óculos de sol que custou alguns milhares de reais. Existem prazeres maiores, como o de pegar ônibus pra ir trabalhar todos os dias e saber que a gente pode virar pro lado e conversar sobre física quântica com um desconhecido; o de abrir um computador num parque público sem se preocupar com quem pode querer roubá-lo; o de não precisar pensar em salário no momento de escolher sua carreira…

Mas como chegar lá?

Isso, sim, seria progresso, e muita gente parece concordar. Mas parecemos dedicar esforço demais a lutas que não levam a esse progresso. O Capitalismo promete há muito tempo chegar lá através do enriquecimento coletivo, mesmo que desigual. Ele se baseia na competição, e convenceu os maus alunos de Biologia de que a competição é natural. Os bons alunos de Biologia perceberam o engodo: na natureza, sociedades numerosas sobrevivem na base da colaboração, sem competição entre seus membros (pense em colméias, formigueiros e grandes cardumes). A competição acontece entre espécies diferentes, ou dentro da mesma espécie em grupos menores (babuínos, leões, gorilas). Parece que a maioria dos alunos não se interessa muito por Biologia e se deixou convencer.

Já o Comunismo promete chegar a esse progresso promovendo a total divisão da produção. Mas ao analisar o fracasso da maior iniciativa realmente comunista que já existiu, a União Soviética(*), a gente percebe que o maior problema foi que ela foi rapidamente tomada por pessoas que se preocupavam demais com seus próprios privilégios. Gente com mentalidade individualista cuidando do coletivo. Até que durou mais tempo do que se poderia esperar…

Os dois campos se confrontam há muito tempo, numa guerra ideológica que mata e entorpece nos dois lados. Enquanto isso, um punhado de ricos está muito contente porque sabe que essa é uma excelente maneira de separar as pessoas.

Não espere que a solução venha de cima. Pouco importa se o mundo é capitalista, comunista, testemunha de Jeová, budista ou muçulmano, a verdadeira mudança tem que vir de baixo, ou seja, de nós mesmos. Temos que perceber o que queremos realmente como progresso e agir de acordo. Isso não quer dizer que não devemos nos preocupar em quem votamos ou pra quem trabalhamos, muito pelo contrário, devemos tentar identificar quem são os candidatos e os empregadores que têm os valores que achamos corretos e apoiá-los. Se você concorda, não deixe de compartilhar este texto; nem sei se essa ideologia já tem nome, mas ela precisa ganhar mind share. Se não concorda, pode usar a parte de comentários abaixo pra gente discutir.

* Não considero a China como “realmente comunista” pois a única característica comunista da China me parece ser o controle exercido pelo Estado em todos os aspectos da vida, e a chinesada quer mesmo é ganhar dinheiro

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7 comentários

  1. Eu tenho a forte sensação de que o “comunismo” ainda deverá ser reavaliado de forma mais desapaixonada: há os que o vêem como o diabo na terra e outros que recusam a priori qualquer crítica. Mas, ficando um pouco do lado dos defensores, acho que a experiência socialista soviética (e derivadas, como a cubana) ainda são muito pouco e muito específica historicamente para permitir uma avaliação do comunismo como um todo. No fim, eles não conseguiram de fato cumprir a promessa fundamental do comunismo: a abolição das relações sociais baseadas na mercadoria (apenas tornaram-na regulada pelo Estado) e da alienação do trabalho…

  2. (*ainda É muito pouco)

  3. Daniel · · Resposta

    Carlinhos, concordo com quase tudo. Quase.
    Acho que não faz sentido culpar o capitalismo pelo fracasso do comunismo. Na prática essa é a ideia passada quando você identifica a mentalidade capitalista dos líderes comunista como a causa do insucesso. Talvez seja uma constatação correta, mas só mostra o quão utópico é o comunismo.
    Ora, somos muito mais babuínos do que formigas. O comunismo não tem a menor chance de funcionar, e o motivo também pode ser encontrado na biologia. Nesta caso, nem é preciso ser biólogo. Basta andar de metrô. Somos incapazes de fazer filas como as formiguinhas. Não conseguimos organizar nem nosso espaço comum da menaira como elas fazem, como esperar que organizemos nossas riquezas de maneira “formigal”.

    Entretanto esta cada vez mais evidente que o modelo econômico atual é um desastre. Alguma coisa precisa mudar.
    Meu ponto aqui é que não adianta mudar para alguma coisa que não tem como funcionar. O modelo comunista pode funcionar por um tempo, mas invariavelmente voltaremos a ser babuínos.

  4. Meus caros,

    Obrigado pelos comentários.

    Daniel, você não acha que a motivação para furar uma fila vem do espírito de competição da “mentalidade capitalista”?

    Preciso dizer que meu vocabulário é limitado nesse assunto. Quando digo “mentalidade capitalista”, me refiro a um modo de pensar que nasceu muito antes da teoria capitalista, esse de descobrir como fazer fogo e usar a descoberta pra virar o cacique da tribo e pegar todas as virgens, o de inventar armas de fogo pra ir matar índios e escravizar africanos. Esse é o espírito de grupos de leões e babuínos (um macho dominante expulsa os outros ou não deixa que eles toquem as fêmeas), mas não em grupos de bonobos (geneticamente mais próximos de nós que os babuínos, mas que não têm problemas de escassez).

    Somos primatas e não insetos, mas como vivemos em ambientes mais populosos do que os outros primatas, devemos usar nosso racional para nos adaptar – inteligência é sobretudo capacidade de adaptação – e nisso as formigas e abelhas são mais evoluídas.

    Leconnector parte do princípio que as pessoas normais seriam muito mais felizes com esse modo de viver, e que só não chegamos lá ainda porque somos formatados a não querer isso. É o que quero dizer com “a mudança tem que vir de baixo”.

    Tenho outros posts na fila, um deles é sobre motivação, o assunto será abordado de novo.

  5. Daniel · · Resposta

    Carlinhos, eu acho que a motivação para furar uma fila vem do espírito de competição da mentalidade humana, que não é comunista.
    Mas dizer que a mentalidade humana é naturalmente capitalista é uma sentença cruel para o futuro da humanidade.
    Eu prefiro acreditar que o capitalismo esta na mente de alguns, que infelizmente estão encarregados atualmente do condicionamento psicológico de muitos: o que você chamou de formatação. Talvez seja mesmo só um “wishful thought”.
    Nós mesmos, mesmo que tentando pensar diferente, estamos aqui discutindo baseados em nossa mente ocidental.
    Seria legal saber o que pensam mentes orientais sobre o assunto.

    Continuamos no parque…

  6. Grande Daniel. Acho que vc está certo, e de qualquer forma neste post o argumento é de que essa discussão comunismo vs. capitalismo não leva a nada, é apenas mais uma maneira de separar as pessoas. Acredito que mesmo num sistema econômico capitalista podemos ter menos catástrofes humanas, basta termos bons mecanismos de controle.

  7. […] uma força neutra; um tipo de lei biológica, como a Teoria de Darwin sobre a evolução [lt: um artigo do leconnector de 2013 também menciona essa associação]. Mas essa filosofia surgiu de uma tentativa bem consciente de […]

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