Auto-ajuda social: Pavlov neles!

Um mestre e seu discípulo – sim, leconnector também publica historinhas de mestre e discípulo! – caminhavam pelas ruas de Paris. Naquele dia tinham rendez-vous no Hospital Necker. Pegaram o metrô e, ao descerem na estação Duroc, logo começaram a ouvir o som do acordeão, algo de Piazzolla que soava muito bem, apesar das paredes de concreto. O som era mais forte à medida em que se aproximavam da saída da estação, até que se depararam com ele, o músico, sentado em um banquinho, suas grandes mãos e seu grande rosto redondo aparecendo por trás do acordeão. A música os fez esquecer a multidão que passava em todas as direções, o cheiro estranho da linha dez e a sujeira dos corredores. Pararam perto do acordeonista e ali ficaram até o final da música. O mestre pôs a mão direita no bolso, pegou duas moedas de dois euros e depositou na caixinha do músico, que agradeceu com simpatia. Saíram da estação de metrô em direção ao hospital e, uns vinte metros depois, encontraram uma moça sentada na calçada. Um tanto suja, os cabelos longos e escuros como seu vestido surrado, o olhar suplicante, a moça também tinha ao seu lado uma caixinha com umas tantas moedas. Ao vê-los se aproximando, pediu dinheiro. O mestre recusou apenas com o olhar. Sabendo que o mestre ainda trazia dinheiro consigo, o discípulo não se conteve e questionou “Por que não lhe damos também umas moedas?” ao que o mestre respondeu simplesmente “Dessas duas pessoas, meu caro, apenas uma eu quero ver fazendo exatamente a mesma coisa, no mesmo lugar, quando passarmos de novo por aqui.” 

Ivan Pavlov

Ivan Petrovich Pavlov (1849-1936) foi um fisiologista russo que deu origem à Psicologia Comportamental sem querer. Detalhes sobre seu trabalho podem ser encontrados em outros sites (pode começar por aqui e aqui), mas pra fazer um resumo bem superficial, Pavlov descreveu a importância da recompensa (chamada de Reforço) na tomada de decisões, mesmo quando esta se faz de maneira inconsciente.

Não sou especialista, mas acho que Pavlov nunca estudou acordeonistas de metrô, nem mendigos. O fato é que tudo o que fazemos influencia algo ou alguém, estimulando ou inibindo um comportamento, claro que com mais ou menos intensidade, dependendo da situação. No exemplo da historinha, o dinheiro é o reforço positivo, pois ele motiva, ao menos parcialmente, tanto o músico quanto a mendiga a fazerem o que fazem todos os dias. A moral que o mestre tenta passar a seu discípulo é a de que devemos estimular o que julgamos bom (o músico no metrô) e evitar de estimular o que não achamos correto (uma moça que passa dias e noites na calçada). Parece óbvio, não?

Mas a correria do dia-a-dia nos impede de perceber todos os detalhes dessa intrincada rede na qual participamos ao vivermos em sociedade.

É fácil percebermos que comprar um determinado produto estimula sua fábrica a produzir mais. Mas é um pouco complicado nos darmos conta de que mesmo um clique na internet, ou um zap em um canal qualquer na TV é um reforço positivo para algo com o qual não concordamos necessariamente. Quando deixo a TV ligada no domingo, mesmo sem prestar atenção nela, computadores em algum lugar estão certamente registrando que aquele programa está sendo exibido no meu televisor. Isso pode não me afetar diretamente, mas é exatamente essa quantificação de audiência que regula os preços dos anúncios e diz às emissoras de TV quais são os programas em que devem investir mais.

Pavlov neles!

Podemos reclamar da qualidade dos programas de TV, ou da música que ouvimos aonde vamos, para alguém conhecido ou mesmo numa rede social na internet, mas isso não provoca muito efeito. Ao invés Além de reclamar do que não gostamos, poderíamos nos concentrar mais em estimular o que gostamos. Por exemplo, sabendo que a maioria dos fãs de lek-lek compra CDs piratas e baixa músicas ilegalmente, Pavlov neles! Ao comprar CDs originais e pagar os direitos autorais quando baixamos músicas de qualidade, estimulamos sua produção. Pode ser que isso não tire o Gangnam Style da lista de mais vistos no Youtube, mas ainda assim será um estímulo aos músicos que não se preocupam apenas em ganhar dinheiro. Acredite, estes são muitos, mas andam pouco estimulados.

Seria bom se todos se dessem conta da importância de cada decisão de consumo que tomam.

É hora de pararmos de alimentar monstros

Porque olha como isso funciona no modo passivo, ou seja, quando cruzamos os braços e esperamos “a sociedade decidir“(*): médicos não são estimulados quando há mais saúde; policiais e advogados não recebem nenhum estímulo quando há menos crimes; governantes não ganham mais quando a população é mais feliz; mecânicos de automóveis não têm nenhum interesse em viver em um lugar onde os carros nunca quebrem… ou seja, cabe a cada um de nós aplicar o método Pavlov a cada momento da vida, e de forma ativa. Dá trabalho:

Estudantes não recebem nenhum estímulo para aprenderem, e sim para tirarem boas notas nas provas, o que não é a mesma coisa. Resta aos pais e aos professores que se preocupam encontrar uma maneira de estimular o verdadeiro aprendizado.  A mesma coisa com políticos: o mais importante para eles não é melhorar as coisas em sua esfera de atuação, e sim serem vistos como alguém que melhorou coisas. Pois receberão seu estímulo nas próximas eleições, e o mais importante é o eleitor saberacreditar que ele(a) é um(a) bom(a) candidato(a). E isso também acontece com alguns artistas em todas as artes: o mais importante é ser visto como alguém excelente, e não necessariamente ser bom. É essa obsessão pela imagem que contaminou toda a sociedade com uma espécie de síndrome de superficialidade, mas isso é assunto pra outro post. Nos dois casos, uma solução seria os eleitores e o público prestarem mais atenção aos políticos e artistas, passar um pouco de tempo se informando sobre as ações de seus candidatos e se dedicar um pouco a desenvolver seu gosto artístico, e isso passa por conhecer mais arte e fazer comparações. 

Espero que você esteja convencido(a) de que preocupar-se com o que você consome é importante. Custa mais caro, sim, e dá mais trabalho. Mas qualidade é assim, a gente tem que pagar o preço. Em todos os domínios. E vale a pena porque a gente vive pra gozar a vida, e, pra gozar de verdade, é preciso estar prestando atenção.

Se gostou deste post, pode me estimular compartilhando-o. Mesmo que não tenha gostado, pode deixar seu comentário!

* Muitas vezes tomamos decisões sem prestar muita atenção às circunstâncias ou sem dar muito valor às possíveis conseqüências, e nos apoiamos simplesmente em paradigmas. Quando não gostamos do resultado, dizemos que “a culpa é da sociedade”.

 

Nota: Leconnector é contra esmolas, mas a favor da caridade. Clique aqui para entender melhor.

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One comment

  1. […] vir de baixo, ou seja, de nós mesmos. Temos que perceber o que queremos realmente como progresso e agir de acordo. Isso não quer dizer que não devemos nos preocupar em quem votamos ou pra quem trabalhamos, muito […]

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