Curso avançado de jornalismo para editores – parte 2

Seja bem-vindo à segunda parte do curso avançado de jornalismo. Se você não viu a primeira, basta clicar aqui. Mas você pode clicar mais tarde, a ordem das aulas não é muito importante.

Hoje vamos falar de mais uma prioridade no seu trabalho como editor:

Prioridade 3: Tocar o TERROR

Quando George W. Bush lançou a temporada de caça a Osama Bin Laden, lá pelos idos de 2001, escolheu o nome da operação a dedo: “Guerra Contra o Terror” (“War on terror“). Ele não a chamou de “operação pela tranqüilidade” ou “paz para os americanos”, preferiu aquele nome com duas palavras (ou três, na versão em Português) que chocam e tocam o medo em todo mundo. Isso tem um nome: talento.

Vejamos Recordemos um portal de notícias brasileiro para comparação:

Notícias da Record

Notícias da Record do dia 02/08/13 – captura de tela sem montagem

E a versão mastigada como é de praxe deste curso:

record noticias comentada 020813

Perceba que há até notícias boas aqui e ali na página, algumas delas até mais importantes do que um pão estragado, mas estão sempre cercadas por um terrorzinho. Notícias boas só são boas pro leitor, não pra você, que quer vender jornal ou obter cliques. Lembre-se de que as notícias ruins são sempre bem-vindas, ninguém precisa provar uma notícia ruim. Já uma notícia boa é sempre de se desconfiar, normalmente dá muito trabalho convencer alguém de que uma notícia boa é, sim, verdade, e que não há nenhum ponto negativo que você está escondendo. Cada órgão midiático tem sua dose preferida de terrorismo. Ajuste-a de acordo com o seu público alvo.

Discussão teórica

Preste atenção, isso pode cair na prova do curso:

O terrorismo cativa o leitor e dá credibilidade ao seu jornal. O leitor gosta de ser aterrorizado. Ele tem a sensação de que está sendo protegido do mal, e acha que o seu jornal pode ensiná-lo a evitar problemas. É uma espécie de síndrome de Estocolmo.

"Medo... hmmm... caminho pro lado escuro da Força ele é!"

“Medo… hmmm… caminho pro lado escuro da Força ele é!”

 

O cérebro humano evoluiu por camadas. As partes mais centrais controlam as emoções, funções e sensações mais básicas (medo, fome, desejo sexual…), e as externas, funções mais elaboradas (raciocínio lógico, criatividade, coordenação motora, sensibilidade). Mesmo a baratas têm medo, mas apenas alguns animais podem fazer música, por exemplo.  Digo isso para que você entenda que interpretar notícias dá trabalho para o leitor, pois este precisa ativar as partes mais evoluídas do cérebro. Já o medo será ativado naturalmente, como a sensação de prazer que a gente sente ao tomar um copo d’água quando está com muita sede.

Conclusão: o medo é muito útil e é fácil de ser despertado.

Dica:

Escolha suas palavras com atenção

Você viu, no começo do texto, uma escolha de palavras que leva ao medo rapidamente. Algumas palavras, mesmo que não signifiquem nada de mau, carregam em si uma aura negra. Isso porque, você sabe, a gente não começou a trabalhar ontem; faz tempo que o jornalismo se esforça pra criar estigmas, aproveite deles! Exemplos de palavras:

  • muçulmanos: como toda palavra que distingue grupos, é mais forte quando usada no plural;
  • iranianos, iraquianos, palestinos, paquistaneses, árabes: algumas origens já estão suficientemente estigmatizadas.  Exemplo: “estudantes suecos entram no metrô às 18 horas” não provoca reação nenhuma, mas “palestinos invadem trem lotado” é capaz de arrepiar todos os pêlos do corpo, mesmo que os palestinos em questão sejam também estudantes (o que você deve evitar de mencionar, primeiro porque estudantes normalmente provoca simpatia, e em segundo porque o leitor não sabe que existem estudantes palestinos, ele acha que são todos homens adultos, barbados e terroristas. Não queira mudar a idéia que o leitor faz do mundo, os editores que vieram antes de você tiveram muito trabalho pra construí-la).
  •  Há sempre várias possibilidades para escrever um título. Tudo é importante: a voz (passiva ou ativa), os substantivos, adjetivos e verbos. Exemplos abaixo:
Notícia sobre o julgamento do Carandiru. Portal Terra, 03/08/13

Notícia sobre o julgamento do Carandiru. Portal Terra, 03/08/13

Notícia do julgamento do Carandiru, Folha de S. Paulo, 03/08/13

Notícia do julgamento do Carandiru, Folha de S. Paulo, 03/08/13

A primeira notícia usa a voz ativa. É o júri quem condena, e o subtítulo lembra por quê. Título e subtítulo estão finamente salpicados de palavras de aura negativa: prisão, massacre, sentença, presídio. O subtítulo faz a contagem acumulada de presos (48), e a última frase pode despertar a antipatia do leitor contra esses réus que ainda poderão recorrer em liberdade.

Na segunda notícia, os policiais militares (“PMs”) são condenados. Use a voz passiva quando quiser reforçar a idéia de que o objeto da ação é vítima dela. A última frase do subtítulo desperta compaixão pelas vítimas da condenação. As palavras de aura negativa foram evitadas e usadas apenas quando necessário – lembre-se que “Massacre do Carandiru” é um tag, como visto no começo da aula, e não deve ser evitado, mesmo que doa um pouco.

Este curso não pretende discutir Física Quântica (como policiais podem ficar presos e em liberdade ao mesmo tempo), apenas a forma de informar (“formar por dentro” = “fazer a cabeça”).

Use terrorismo com inteligência e o seu portal será bem-sucedido. O curso vai parar para as férias anuais, e volta em algumas semanas. Enquanto isso, pratique! Se você escreve em Portugal, na falta de más notícias há águas-vivas, insolação, desidratação, crianças perdidas nas praias… Se você está no Brasil, sugiro que fale da seca, do frio, do consumo de energia elétrica e da inversão térmica de São Paulo.

Não deixe de comentar e me escrever e-mails com perguntas ou críticas, o curso entrará em férias, mas Leconnector, não.

red pill terror group

Até breve!

[Parte 1 (Quantidade e Propaganda)] — [Parte 2 (Terrorismo)] — [Parte 3 (Polêmica)] — [Parte 4 (abortando revoluções)]

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7 Comentários

  1. Há um erro no texto, sobre a quantidade de policiais condenados pelo Massacre do Carandiru. 25 foram condenados no último julgamento. Queiram me desculpar pela falta de atenção.

  2. Erro corrigido, mas deixo o comentário acima para registro e pra eu prestar mais atenção no futuro.

  3. […] esquizofrênico ouve vozes que dizem quem ele deve odiar. […]

  4. […] (pode clicar aqui para ir para a Parte 2) […]

  5. […] que é, né. Aqui não tem polêmica que caiba. E espero que quem estudou as partes 1 e 2 já tenha percebido o truque. O título acima fica mais tempo no cérebro e ativa mais neurônios […]

  6. […] E pra gravar a memória, a mesma coisa, só que as emoções também entram no jogo. E às vezes passamos por uma emoção muito forte sem entender bem a situação de forma racional, o que gera um trauma psicológico. Os criadores de mídia sabem disso e se servem muito bem das nossas emoções para controlar o que esquecemos ou lembramos. Mais detalhes na Parte 2 do Curso de Jornalismo para Editores. […]

  7. […] A cada vez que um verbo aparece associado aos vândalos, está na voz ativa; já o policial, este, “ficou ferido” (lembra da explicação sobre voz passiva e ativa da Parte 2 do curso?); […]

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