A quem interessam as fronteiras?

There is an English version here.

 

Este é um monumento para os que foram mortos tentando cruzar a fronteira México – Estados Unidos. Cada caixão representa um ano e o número de mortos naquele ano. É um protesto contra os efeitos da Operação Guardião. Tirada na fronteira Tijuana – San Diego por Tomas Castelazo.

Antes de tudo, eu preciso agradecer à Polícia Federal do Brasil por fazer minha família e eu passarmos por três controles internacionais de passaporte e (toda a nossa) bagagem em nossa viagem a São Paulo, por causa de uma escala no Rio, mesmo sem mudança de avião, e, claro, a mesma coisa na volta. Não estou sendo irônico: o tempo de espera nas várias filas me inspirou a escrever este post. Espero que gostem, apesar de que muita gente que eu conheço vai achar esse começo meio ingênuo:

Imagine que não existem países / Não é tão difícil assim“… é difícil, sim, John. Ainda mais depois que me convenceram de que as fronteiras são a minha melhor proteção contra milhões e milhões de Indianos, Latino-Americanos e Africanos que poderiam a qualquer momento invadir meu apartamento, devorar minhas crianças, estuprar minha esposa e tocar a zona nos meus DVDs.

Mas eu acho que entendo o que você queria dizer. Não se trata apenas de tirar os guardas das fronteiras e deixar todo mundo passar à vontade por elas. Trata-se também de fazer a Coca-Cola parar de assassinar líderes sindicais na América Latina, e de evitar que outras multinacionais deixem de pagar impostos porque têm escritórios em outros países. Também se trata de acabar com a destruição da África pelos subsídios agrícolas europeus. E, claro, trata-se de deixar de gastar uma parte considerável de nossas riquezas com forças armadas, porque não precisaríamos que esses garotos morressem pra proteger nosso estilo de vida. “Nothing to kill or die for…” (“Nenhum motivo pra matar ou pra morrer”)…

Bonito, né? Mas apenas para aqueles que não foram convencidos de que cada ser humano deve competir contra todos os outros. Esses vão continuar se protegendo com as inúmeras fronteiras que podem erguer pra formar grupos que os separem do resto do mundo: origem, cor da pele, religião, sexo e até time de futebol… Um outro post vai discutir como tanta gente foi convencida dessa competição. Este aqui fala de quem os convenceu e por quê.

Primeira pista: fronteiras geográficas são um verdadeiro limite para pessoas normais, mas não para grandes empresas privadas: pessoas normais passam um bom tempo se informando sobre que documentos providenciar para obter um visto. O preço da passagem também pesa no bolso. Por outro lado, os ricos e as empresas privadas contratam gente que já sabe o que fazer pra lidar com a burocracia, e não preciso dizer que o preço da passagem não vai fazer diferença alguma. Mas note que as grandes empresas não ignoram, e sim se aproveitam das fronteiras e dos diversos sistemas legais e administrativos que elas limitam. Questão de maximização de lucros. Você não pode pagar salários chineses e esperar que seus empregados possam comprar os smartphones que a sua empresa produziu. Você vai ter que vender a produção pros europeus, japoneses, norte-americanos…

Outra pista: divide et impera (“divida e conquiste”) é uma estratégia muito antiga, e ela se torna obrigatória quando um pequeno grupo quer dominar um grande grupo de pessoas. A ferramenta mais importante nesse processo é a comunicação. Se você quer separar pessoas, primeiro assegure-se de que elas o(a) escutarão o máximo possível, e conversarão entre si o mínimo possível – ou então falarão apenas de assuntos fúteis. Hoje em dia, quem tem o poder de fazer isso?

A mídia, querendo ou não, estimula a divisão das pessoas ao

Notícia de ontem no JN

Notícia de ontem no JN

culpar grupos ao invés de destacar suas intenções, e ao destacar os problemas ao invés de discutir possíveis soluções. Até pouco tempo atrás ela tentava convencer todo mundo de que já nascemos “bons” ou “maus”, o que parece andar fora de moda, pelo menos nos países desenvolvidos  – mas, como mencionado acima, isso será discutido em um outro texto.

Você é Ruth ou Raquel?

A menos que você tenha passado toda sua vida sem ver TV nem ler revistas, você foi – e ainda é – sistematicamente estimulado(a) a fazer parte de um grupo de pessoas. Pode ser quase qualquer coisa: emos, rappers, clubbers, muçulmanos, católicos, skatistas, surfistas, praticantes de yoga… e quando você entrou em um grupo, percebeu que fazer parte do grupo não quer dizer simplesmente praticar yoga. Você se sente obrigado(a) a começar a comer como os outros membros do grupo, a usar as mesmas roupas que eles, a falar como eles, tudo isso para se fundir no grupo. Não vejo nada de errado nisso por si só, mas os problemas aparecem quando o grupo o(a) convence de que você tem inimigos. Assim, se você se juntou aos rappers, não terá amigos emos. Mas não se preocupe: você nunca será estimulado(a) pela mídia a se juntar a um grupo de pessoas normais que lutam contra a dominação ideológica dos mais ricos. Entendeu? Essa foi a terceira pista.

Você tem razão, se pensa que não há nada de novo em tudo o que escrevi. Você também pode ter razão se pensa que sempre existirão fronteiras. Mas Leconnector vai continuar publicando, porque ser ingênuo(a), mesmo, é dedicar sua vida a enriquecer algumas poucas pessoas que o(a) convenceram de que felicidade é ter coisas que as outras pessoas não podem comprar. Meu objetivo é mostrar que nós podemos tirar proveito desse sistema, ao invés de ser apenas explorados por ele. E aí? Revendo seu conceito de ingenuidade?

Não deixe de comentar e compartilhar! A versão em Inglês deste texto nos conectou aos E.U.A., espero que ele também será bem-vindo em países lusófonos…

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3 Comentários

  1. […] A quem interessam as fronteiras? | leconnector · 20/07/2013 – 10:43 · Resposta→ […]

  2. […] Os dois campos se confrontam há muito tempo, numa guerra ideológica que mata e entorpece nos dois lados. Enquanto isso, um punhado de ricos está muito contente porque sabe que essa é uma excelente maneira de separar as pessoas. […]

  3. […] Mas passou, não se preocupem tanto comigo. Igual a quando alguém famoso morreu e a TV ficou falando durante meses, e eu sempre ouvindo…  é assim, a vida tem pesos diferentes pra mim. Não é a quantidade que conta, nem a distância física, e sim a distância psicológica. […]

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